2007-01-02

o amor mora aqui



é um homem branco mais branco do que o normal. nasceu albino no seio de uma família que não conhecia tal herança genética. foi com grande espanto que a mãe o recebeu bola de neve quente sujo de sangue. viu nele um monstro e apartou-o para casa de uma prima que não lhe deu afecto nenhum. josé seria o primeiro de quatro irmãos albinos num total de seis filhos que bebiana teve. a aldeia transmontana tornou-se um núcleo de formigas curiosas que acorriam à casa do tapadas. esta era a alcunha de joaquim que rapidamente se refugiou na bebida por não aceitar os fantasmas. a filha mais velha matou-se e as mais novas pintam o cabelo e vão à praia com sombrinhas. josé escreveu uma carta ao salazar e teve direito a um par de óculos especial e lugar no navio para áfrica. aos vinte anos já vivia em joanesburgo e aprendia o ofício de contar dinheiro. ficou conhecido como o homem mais branco do ultramar com mais namoradas. depois foi destacado para uma agência portuguesa e não deixou descendência mesclada. arrendou um quarto no centro da vila até o gerente do banco lhe confiar um cargo de respeito. comprou uma casa bem no centro da zona histórica para assombro de todos os que o tratavam por branquinho. começou a sair com uma rapariga chamada lola que casou com outro homem e foi muito infeliz. um dia ia a atravessar a rua e cruzou-se com uma rapariga que usava a saia muito curta e decidiu casar com ela. é uma mulher pequena e magra que trabalha como modista e tem uma mestra má como as cobras. ameaçou maria que aquele tipo de homens tinha uma pele que transpirava nódoas para a roupa. quando josé foi namorá-la no banco de pedra debaixo da tangerineira ela passou um lenço branco na cara dele e viu que era falso. olinda não achou graça ao pretendente da filha e mandou franklim segui-lo e vigiá-lo. mas ela disse que só o via a ele dentro do mesmo quarto que ela para a vida toda. maria convivia com uma solteirona muito boa que todos tratavam por menina. vivia num casarão coberto de rendas no pó alto dos movéis excepto o piano de cauda que se ouvia do quintal. anunciada a boda abriram uns botões de rosa debaixo da chuva torrencial que nunca mais nasceram nem se sabe a origem de tais flores. os noivos foram para a ilha da madeira e viveram em lua de mel para sempre.



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para os meus pais, que celebraram ontem 30 anos de casados.

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faz hoje um ano que vivo nessa casa que o meu pai comprou.

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(quadro de salvador dali)

6 comentários:

francisco carvalho disse...

Que belo e maravilhoso filme!

Parabéns. Aos teus pais.
E a ti.

Ana Maria disse...

parabéns a ti por mais um excelente e original texto e também a teus pais pela convivência comum de 30 anos.
jinhos Alice

lena disse...

parabéns aos teus pais, bela Alice

parabéns a ti por seres uma filha especial e que escreve com tanto sentimento

maravilhoso o que li!


deixo o meu olhar preso nas tua escrita


abraço-te com ternura doce menina e um beijo meu que aqui deixo

lena

Y. disse...

dentro do tempo.




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casa do sol.



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gostei. particularmente.



:Bjo.

Maria disse...

Uma homenagem muito bonita aos teus pais.

Não consigo mesmo é ver os quadros... qualquer problema no blogger..

Bom ano pra ti
Um beijo

melgadoporto disse...

Quando li as tuas palavras disse, sorrindo para mim: Olha um dejá vu...
Ontem quando regressava a casa, ia no metro um garotito albino.
Olhei para ele e senti o quanto corajoso teria que ser na sua vida.
Pensei assim porque mesmo eu o olhei, de repente, como diferente.
Ao longo da viagem o quanto me arrependi, do meu primeiro olhar.
Ele não é diferente, nós é que somos todos demasiado iguais.
Por isso amiguito de viagem, lembra-te sempre disto!
E desculpa o olhar... se puderes...obrigado!
Bj´s