
ela é a primeira a se abrir
emite sinais para o universo
não sei se ela sorri
autor: chi kung for beautiful ladies
(fotografia de filomena chito)




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(fotografia de frederic gailard)


eu gostava de dedicar este post a um desconhecido. mas não tenho coragem. ele veio aqui deixar um poema. talvez seja o único que aqui se publicou. e falou de deisy. mas eu vivi demais esses dois dias. e agora teria de morrer. antes de falar. vou dar um exemplo. durante meses eu li diálogos. era bom. mas faltava algo. aí eu conheci o autor. quando ele sentou a meu lado eu disse. tem olhos bonitos. e ele perdeu a garrafa de água. deixou cair o mar. é a vida, entende? você vai ao ballet e as moças fazem ondas. há quem chore a guitarra por ciúme do abraço. há quem molhe os pés na trovoada. há quem prefira o elevador. e é diferente. há versos nos degraus. através do vidro. o poema sobe. enquanto desce. toma uma bica enquanto finge. o sangue está sendo derramado na sala ao lado. mas você repara nas lâmpadas. usa a desculpa do tecto. para abrir o portátil. toma boleia com uma estranha. porque serralves merece. sem saber. vai a um recital de piano. sentir florbela espanca. na voz das sopranos. sem querer. abandona sua condição de leitor. o diálogo é uma cena de corpo presente. de repente percebe o amor. e reconhece a errância. a proveniência da solidão. ao escuro de uma noite. e tem pavor. entra em pânico. e sai de cena. evita o nuno júdice. é óbvio que fica triste. afinal é humano. procura adivinhar o que ele disse. e compra um livro. na esperança da serenidade. dedica um post. na tentativa de agradecer. sabe que não consegue. é impossível deixar cair o mar. é impossível escrever uma tempestade. ouve o piano tocando a guitarra chorando o vento assobiando o granizo batendo a florbela espancando e foge. o destino é a casa a casa é a madrugada. tenho frio estou cansada e sei que vou morrer. até amanhã, medo. até amanhã, moça.
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(fotografia de berenika)



hoje é amargo. houve dias assim antes. apagava a luz e via. blocos de gelo com sinais vermelhos. a piscar na escuridão indesmentível. houve dias eternos. dias gigantes e efémeros. e dias inutéis. quando me escreveste. há muito tempo atrás. eu não sabia ler. dezembro era uma miragem. do pico do verão. o luar de agosto chorava. no céu branco do amor. abrir uma carta era um fôlego de reposteiro. deixar o sol entrar. no idioma enclausurado. dentro do coração. a noite era um livro indecifrável. tinteiro entornado a verter estrelas. nos pôros do papel. e só o lume traduz. a caligrafia da pele.
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(fotografia de francisco cardoso)





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(fotografia de paulo bizarro)


(fotografia de autor desconhecido)


