2006-12-19

dedicado à aliece



tenho 1 pé de planta no jardim
só um impulso para florescer
tudo e todos ao seu redor
mas ela é a primeira a florir

ela é a primeira a se abrir
ao vento e à luz do sol
emite sinais para o universo
-são um sim-
o pé de planta no jardim

não sei se ela sorri
ou se ri de mim
o pé de planta do meu jardim


autor: chi kung for beautiful ladies





(fotografia de filomena chito)

2006-12-18

geometria descritiva



Não te equivocaste de facto
por uma mera ilusão ocular
descansa não foste atraiçoada
pois era eu mesmo trajando fato
um ponto na multidão tentacular
anónimo espectador desse concerto
que de modo indelével me marcou
em fim de dia ainda tão hodierno
e o trajar de facto a pedir conserto
mas não deixo por tal de ser (e sou)
de fato ou casual(mente)... terno.




de facto
estavas de fato
assentava-te bem
apesar das rugas de expressão
nas bainhas das calças
e eu hesitei em admitir-te tão nu
demorei a perbeber a roupa dos teus afectos
e nesse dia perdi a ternura
de todos os outros dias
em que não usavas gravata
e não há segundas oportunidades
para as primeiras impressões


alice


*

decidi recuperar este post do meu amigo alberto, publicado no blog dele no início de março, que é para mim um exemplo da sadia interacção entre bloggers, e que deu o mote para o tipo de comentários que desde então ele publica neste espaço, o que sempre me deu enormes alegrias. de entre os inúmeros inéditos que o alberto acrescentou aos meus posts, escolhi os poemas que ele aqui escreveu, e decidi partilhá-los com todos os leitores, como forma de agradecer a presença querida de uma pessoa que só fez coisas bonitas desde que nos encontramos. muito obrigada por todas as tuas palavras e os melhores votos natalícios desta tua admiradora.

*


de ti nunca esquecerei
a música que ao ouvido não me tocaste
as promessas que nunca te farei
o amo-te que não pronunciaste
que o destino nos foi sempre adverso
e o farol a nós não iluminou
tivemos a má sorte de ser o inverso
da luz que aos outros indicou


*


o teu colo
é o meu leito
a ele me colo
em ti me deito
o teu colo
é o meu castelo
o meu refúgio
minha muralha
sobre ele
meu coração trabalha
não há subterfúgio
no teu colo
respiro tenso-intenso
e quero imenso
o teu colo


*


bebo-te sem tento
mágico poema d´água
que no meu corpo sedento
não fique uma gota de mágoa
por não te ter ingerido
gole-a-gole, em alegria plena
bebo-te ávido e sem sentido
até que o meu sangue seja poema


*


(quadro de amadeu souza cardoso)

2006-12-17

um lugar puro





recebi uma orquídea dentro de um vaso. nunca mais poderei dizer que vivo sózinha. a amiga que ma ofereceu. estava a pesquisar os autocarros. e mandou-me um regulamento. há coisas assim. durante todo o tempo da gravidez. os meus pais pensaram que eu era um rapaz. ia chamar-me josé miguel. no dia do parto não houve grande imaginação. e ficou o nome da mãe. bem haja a falta de inspiração. mas era preciso escolher outro. houve alguém que me chamou laura. quando isso aconteceu. fiquei muito doente. depois apagou tudo. mas nunca recuperei. o melhor a fazer à ironia. é transformá-la numa homenagem. cura instantânea. fica o nome imortalizado. n' a tradução da memória. função do que escrevo. e título para o efeito. eis um segredo lacrado. por correio registado. isto a propósito do insólito. ontem fui ao lançamento de um livro. o apresentador era o autor. o local uma capela. uma palavra linda para um sítio extraordinário. estive na Casa de Deus a ouvir poesia. foi único e maravilhoso. agradeço à bárbara. tenho um Oráculo autografado para ti. à minha mãe o nome igualzinho ao meu. ao alberto o heterónimo pronto a usar. e ao José Rui Teixeira pela ideia genial. da poesia à cappela.

*

Quando eu era criança anoitecia
sobre a verdade intrínseca de haver ruas
pequenas e horizontes pequenos no fundo
das ruas. Os velhos sentavam-se na soleira
das portas nas noites de verão e as raparigas
sangravam demoradamente o calor
para dentro dos pulmões e cresciam-lhes
os seios, e fechavam-se em casa. Quando eu
era criança a minha mãe pousava na superfície
do outono como um anjo ferido




autor: José Rui Teixeira

Oráculo, Edições Quasi


*



(fotografia de roxana afonso)

2006-12-15

dor sem rosto



antes. quando ainda éramos as plantas dos pés um do outro. e nos cegávamos de tanto rirmos. da chuva adormecendo pelo caminho. as paredes eram de carvão. e a janela. já esquecida. mergulhava no canto da casa. silenciosa. não sei se houve noite nessa noite. estás a arder. e ninguém te ouviu. passaste-me a saliva da tua boca. e os nossos dentes morderam-se. as costas fecham-se num grito. morrem-se-te os olhos. morrem-se-te os lábios. e sentes todos os beijos. e as fotografias. que soprámos. para dentro da memória. desfazem-se até à febre interior da tinta. e as gotas falavam pela torneira. que nunca se calou. enquanto a noite se ausentava. para dentro dos olhos. quando fazemos amor. engolidos pelo espaço. que separa cada dedo. um do outro. passam sempre duas horas da noite anterior. se ainda fosses deus. poderíamos queimar. todos os papéis brancos por falar.



*

(fotografia de frederic gailard)

2006-12-12

a mulher invisível



adoeceste-me.
apetece-me escrever a palavra sossego. mas sei que não faz efeito nenhum.

penso no nosso primeiro encontro. no alto de uma livraria. e atravesso o mais longo beijo. até à tua sombra.
o ar cái sobre a nossa cama. sobre os lençóis demorados das tuas pernas. e dói. dói estar fora de ti e respirar.
lembra-te que o teu corpo. já antes havia encostado ao meu. como um navio. e nunca mais fomos inteiros.
lembra-te que nos extinguimos. um no outro. como água que corre lenta. numa só língua quente. e nunca mais morríamos.
enquanto fechavas o teu corpo. dentro do meu. e derramámos os lábios. para dentro das nossas bocas. não escurecia. bebias todo o veneno. sem saberes o meu nome.
e as estrelas. lambiam a ponta dos dedos. para respeitar. o silêncio da tua voz. para respeitar. a queimadura da nossa solidão.
eu sei que não gostas que chore sem ti. eu sei que um dia. as árvores por onde passámos os dois. serão cinza e perda. e começo a andar. demoradamente. para conhecer todos os lugares. de onde partiste.
enquanto os vidros fumam a nossa transpiração.


*

(fotografia de francesca woodman)

2006-12-09

o homem invisível



eu gostava de dedicar este post a um desconhecido. mas não tenho coragem. ele veio aqui deixar um poema. talvez seja o único que aqui se publicou. e falou de deisy. mas eu vivi demais esses dois dias. e agora teria de morrer. antes de falar. vou dar um exemplo. durante meses eu li diálogos. era bom. mas faltava algo. aí eu conheci o autor. quando ele sentou a meu lado eu disse. tem olhos bonitos. e ele perdeu a garrafa de água. deixou cair o mar. é a vida, entende? você vai ao ballet e as moças fazem ondas. há quem chore a guitarra por ciúme do abraço. há quem molhe os pés na trovoada. há quem prefira o elevador. e é diferente. há versos nos degraus. através do vidro. o poema sobe. enquanto desce. toma uma bica enquanto finge. o sangue está sendo derramado na sala ao lado. mas você repara nas lâmpadas. usa a desculpa do tecto. para abrir o portátil. toma boleia com uma estranha. porque serralves merece. sem saber. vai a um recital de piano. sentir florbela espanca. na voz das sopranos. sem querer. abandona sua condição de leitor. o diálogo é uma cena de corpo presente. de repente percebe o amor. e reconhece a errância. a proveniência da solidão. ao escuro de uma noite. e tem pavor. entra em pânico. e sai de cena. evita o nuno júdice. é óbvio que fica triste. afinal é humano. procura adivinhar o que ele disse. e compra um livro. na esperança da serenidade. dedica um post. na tentativa de agradecer. sabe que não consegue. é impossível deixar cair o mar. é impossível escrever uma tempestade. ouve o piano tocando a guitarra chorando o vento assobiando o granizo batendo a florbela espancando e foge. o destino é a casa a casa é a madrugada. tenho frio estou cansada e sei que vou morrer. até amanhã, medo. até amanhã, moça.



*



(fotografia de berenika)

2006-12-06

a vapor do tempo



esta semana tem sido uma tábua de engomar. ontem fui ao teatro. estava lá uma menina da telenovela. e um menino que parecia um sol. o homem do meio despiu-me. pela cana do nariz acima. tinha lentes grossas. por cada dioptria. que via a menos para fora. via a mais para dentro. isto baseada na teoria. que a miopia é um mal. que veio por bem. ver pior ao longe. para ver melhor a alma. eu só pensava na isabel. levava o piano no bolso. pronto a tocar. mas falhei uma ou duas teclas. depois veio o bobo. do alexandre herculano. e eu que sou disléxica. não pronunciei o mosteiro. agora cante. eu? o sol brasileiro sorria. a actriz que fez de vilã fez de boazinha. e o homem do meio pegou em mim. nuinha no meio do palco. e passou-me a ferro. como é que se faz. para ter o teatro. dentro dos óculos?

*

(fotografia de autor desconhecido)

*

hoje recebi flores. é a segunda vez. em muito pouco tempo. e faz rugas. oxalá encontre o homem dos efeitos especiais. numa esquina da arte. boa noite, isabel

2006-12-05

os seios de adélia



a partir de hoje vou relatar os casos mais pertinentes deste consultório. ao abrigo da ética deontológica. todos os nomes apresentados. são pouco ou nada ficcionados. a primeira paciente de que irei falar. não convive bem com a ternura dos seus quarenta e poucos anos de idade. é uma mulher casada mas o seu problema não é o marido. é o amante. logo na primeira consulta fez questão de me mostrar o peito. como é que possível, doutora? ele só me quer por causa das mamas. eu faço tudo tudo tudo e nada adianta. é uma fixação doentia, não acha? vamos por partes, adélia. quando diz que faz tudo refere-se exactamente a quê? a última vez que saí com ele. quando estávamos a jantar. levantei-me e fui ao toilette tirar a tanguinha. quando voltei a sentar-me. entreguei-lha por baixo da mesa. foi muito embaraçoso. mas isso é fantástico. adélia. dou-lhe os meus parabéns. e qual foi a reacção dele a uma iniciativa tão arrojada? pediu-me que desapertasse os botões da blusa. para comer o meu decote com os olhos. mas isso é muito positivo, adélia. estabeleceram um jogo de sedução. como é que acabou a noite? eu que até tinha nojo, doutora, fiz-lhe sexo oral. diga-me uma coisa, adélia. quando está a praticar o felatio, entala bem a língua entre a glande e o prepúcio?


*

(fotografia de jacek pomykalski)

2006-12-04

manual de caligrafia



hoje é amargo. houve dias assim antes. apagava a luz e via. blocos de gelo com sinais vermelhos. a piscar na escuridão indesmentível. houve dias eternos. dias gigantes e efémeros. e dias inutéis. quando me escreveste. há muito tempo atrás. eu não sabia ler. dezembro era uma miragem. do pico do verão. o luar de agosto chorava. no céu branco do amor. abrir uma carta era um fôlego de reposteiro. deixar o sol entrar. no idioma enclausurado. dentro do coração. a noite era um livro indecifrável. tinteiro entornado a verter estrelas. nos pôros do papel. e só o lume traduz. a caligrafia da pele.



*



(fotografia de francisco cardoso)

2006-11-30

relatório preliminar



o cadáver de hoje é um rapaz aos caracóis. suspeita de envenenamento. o antídoto é a poesia. um beijo na testa antes de abrir. sabe a chuva de novembro. cheira ao perfume de deus. tem uma nuvem escangalhada dentro da cabeça. e uma chave que abre a porta do céu. pendurada numa mola de estender a roupa. os olhos são limões com espingardas. o pescoço é um barco ao longe. os pêlos do peito são lírios ao vento. e desconfio que a pele é do fundo do mar. ver à boca de cena quantos sonhos tem nos dentes. ouvir o silêncio. a alma é o osso do coração. possível causa de morte: caixa torácica insuficiente. dada a proximidade pulmonar. o sangue veio a coalhar. leitos de rubis. um colar de beijos. nas falanges das mãos. começou a falar. não me espanta. é um génio.


*

(fotofrafia de augusto peixoto)

2006-11-28

uma flor





era uma vez uma fada muito bonita que vivia num vaso. um vaso é um mundo muito próprio onde a terra faz vibrar as pequenas coisas. nesse vaso o dia não é dia. e o sol nasce durante a noite. as sombras dançam acalentando um sorriso. nssinha era talvez uma doce surpresa adolescente. ela tinha o condão de despoletar o orvalho nos olhos de uma flor. foi ela quem criou as pedras redondas e polidas e delas fez caminhos de água. havia uma ilha de prata no meio do vaso a que chamamos lua. teria nssinha de construir a paciência? para atravessar o mar do mundo? nesse vaso as horas são árvores que falam. que acordam nssinha. as folhas verdes inclinam-se sobre os caminhos de água. e beijam-lhe o umbigo. à tardinha. o tempo desvanece-se na ondulação da seiva. nssinha vestia o seu manto de anémonas. e viajava no seu barquinho de folhas. num esplendor verde. o seu corpo poema escarpado. é a eternidade no vaso da ausência.



O Corvo (autor do texto e da imagem) e eu queremos oferecer à nossa amiga Vanessa uma flor que pertence a outro tempo.



deixas-nos ser os teus pirilampos?

2006-11-26

"ama como a estrada começa"



Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco

Mário Cesariny



(quadro de mário cesariny e mário botas)

2006-11-23

um ano depois



querido avô
não irei repetir as tuas últimas palavras
tentarei proferir as que não me disseste
foi depois das seis horas da tarde
pousei o auscultador respeitosamente
imprimi um papel de luto antes de sair
deixei a minha mãe desenhar o primeiro gesto
e recebi no ombro o vómito do teu sorriso
fui eu quem te vestiu e remendou um terço nas mãos

hoje é dia do pai, avô
hoje é um dia duro, pai
tu és o meu pai em todas as minhas horas
e eu sou filha do teu sexo inerte e puro

tu penduraste o meu medo no banco do baloiço
tu levaste-me à escola no primeiro dia da inocência
tu mudaste o meu penso higiénico no teu sangue
tu mostraste-me a beleza das flores e das pedras
tu levantaste-me de todas as vezes que me deixaste cair
tu ergueste-me mulher por dentro dos teus olhos
tu compraste-me cigarros com a tua reforma inválida
tu deste-me a tua cama para eu amar um homem
tu enviaste-me um anjo nas asas do adeus

amo-te, avô
morreste no dia 23 de novembro de 2005
e ainda não verti uma lágrima
tu sabes que eu quero chorar
tu sabes tudo de mim, avô

sabes que intuí o amor do anjo
e que me vi no espelho que o anjo me trouxe
como antes me vias e eu não podia

sabes que eu não sabia nada de mim
sabes que morri em todas as palavras do anjo
e que nasci em cada um dos seus silêncios
sabes que sofri as humilhações do anjo
e que a tortura do anjo me edifica
sabes que voei nas promessas do anjo
e que a ternura é o melhor orgasmo
sabes que o anjo me fez feliz, avô
sabes que amo o anjo

onde está o meu anjo, pai?



*

(fotografia de jaime silva)

2006-11-21

fruto proíbido


sem asas nem escada. assim a folhagem esgrime a brisa. em voo brando.


*

(fotografia de autor desconhecido)

2006-11-18

acróstico



Foste tu que ensinaste à lua a preciosa
Rota dos cometas e dos corpos celestes
Apanhaste as estrelas do céu e do mar
Navegaste oceanos de luz e esperança
Criaste o azul dos poetas e inventaste o
Infinito. foste tu que ensinaste aos raios
Solares o brilho puro da água dentro do
Coração das flores e guardaste a magia
Onde começa a vida e termina a dor.

*

(fotografia de paulo bizarro)

2006-11-16

com o luís



não ousarei reescrever
a palavra tempestade
uma gota deste mar
de ventos consumidos
serei antes a praia
que acalenta esperanças
ou um grão de areia apenas
na ilha de todas as ilusões
tu és um poema de água e sal
que brota do riacho dos sentidos

Vocifera marinheiro
hasteia a bandeira negra
De tormentosas palavras
corta os mares à vela e
Cavalga crepúsculos
até chegares ao horizonte
Do poema derradeiro
onde mora a brancura de
Sal e mel de manhãs alvas
só então encontrarás a paz
Transportada por moluscos
artifícies da serenidade
De prata como são as salvas
de ouro como a eternidade

alice e luís monteiro da cunha



*

(fotografia de autor desconhecido)

2006-11-05

ilusão de óptica




no cabelo pintou madeixas de outono
e na boca o sangue das cerejas
trazia na pele o aroma das rosas
e uma lágrima verde a apodrecer
na lapela
alice


no húmus a lágrima cresce madrugada
e o outono leva nas folhas
a tinta do velho amor
compro lindas roupas
uns lábios novos
e sacudo o verde da lapela
e das estações da pele
na roda dos meus aromas
cresce no meu útero
uma nova flor
ana maria costa



(fotografia de autor desconhecido)

2006-10-30

uma semana depois




derrama o teu leite
na borda do parágrafo
sem abreviaturas
nem pontos cardeais
vale sempre a pena chorar
para aumentar os lagos
na berma dos teus olhos
duas luas

o não
meu amor
é uma rotunda
no meio do deserto
se agora fosse antes
davas três voltas comigo
e bebias do mais fresco oásis
tu és sal para a minha sede


*


(fotografia de almor loucão)

2006-10-23

faz hoje dois anos





(fotografia de autor desconhecido)

2006-10-19

a indiferença




a tua ausência é uma casa tão fria
que tenho os ossos na ponta da língua
não são os ossos do meu corpo
que habitam este lugar em chamas
são os ossos dos meus mortos
foi preciso perder-te para ter
na minha boca um caixão a arder
se a indiferença tem mau hálito
escrever é uma questão de higiene
fecho os olhos e vai a enterrar
um beijo que mata devagar



*

(fotografia de ricardo tavares)