2006-09-08

sede



... Um poema não se faz, porém, de ideias, antes de palavras. E a palavra escrita, nada mais é do que uma palavra muda. Este estado de mutismo da palavra, só se altera quando ela se revolve nos lábios de quem a lê e lhe dá voz. É na leitura da palavra, seja ela a palavra que for, que a palavra vive. Enquanto escrita, a palavra não passa de uma quantidade de água dentro de um copo. É preciso beber a palavra, engoli-la e incorporá-la para que possa ser sentida e deformada. Este processo de ingestão das palavras, varia de acordo com a quantidade de água que está dentro do copo. E a palavra só se sente, só se deforma, quando se engole e integra em nós, ficando o copo de água vazio...

(alice, 2003)

*

"porque este espaço é feito do que me toca. porque é feito do que me traduz e em noites assim deixai sempre falar quem melhor sabe e melhor decifra as palavras. por quem as ama. porque eu apenas amo no limite de não saber de que é feita a chuva do meu corpo"

obrigada, a, por me teres citado e por estas palavras tão bonitas... um grande beijinho para ti, bem hajas

*

(fotografia de berenika)

ilhozes de gelo



Hoje fui por dentro do crime
Viajei no interior da bala
Directa ao teu peito
Havia um menino a brincar
Encolhi no mar
A saltar às cordas

Hoje fui por dentro do ciúme
Procurar um destino
Ou um assassino
Havia uma vela a arder
Derreti em seda
A bater às portas

Hoje fui por dentro do sismo
Beijei a garganta
Anti ciclone
Havia um bandido
Um tiro perdido
Com as letras tortas

Hoje fui por dentro da sida
Descobrir que a vida
Não choca icebergues
Havia um tormento
Mole de cimento
Nas ondas já mortas


*

(fotografia de pascal roux)

o poema incompleto



A morte…

… deve ser isto:

Um véu a cobrir-te
Um pano sobre a mesa
Um cinzeiro lavado
Quantos vultos a passar no ecrã?


… deve ser isto:
Um pau de incenso apagado
Uma poça verde na retrete
Quantos vómitos levantam o soalho?

… deve ser isto:
Uma folha de prata abocanhada
Um cordão à volta dos sonhos
Quantos cérebros coalham a verdade?

… deve ser isto:
Uma chama para o olfacto
Uma receita no armário
Quantos isqueiros acendem a lua?

… deve ser isto:
Um suspiro a fazer de vento
Uma corrente de ar nas escadas
Quantos orgasmos espremem os teus olhos?

… deve ser isto:
Uma erecção contínua deitada
Um espectro maldito de urticária
Quantos abismos te separam de um milagre?

… deve ser isto:
Uma palavra por inventar
Um verso à espera no carro
Quantos comprimidos salvarão a agonia?

… deve ser isto:
Uma galinha a fugir sem cabeça
Um veneno amarrado nas horas
Quantos fundos vazios te afagam a fome?

… deve ser isto:
Uma fila de garrafas usadas
Uma lixeira armada na varanda
Quantos preservativos ficam fora de prazo?

…deve ser isto:
Uma criança a crescer no caralho
Uma injecção de moral pelas costas
Quantos penalties farão de ti campeão?

… deve ser isto:
Uma invasão do teu próprio campo
Uma falta de respeito à porta de casa
Quantos cigarros restarão intactos?

… deve ser isto:
Maços de roupa a tapar buracos
Maçãs sem árvores fora da garganta
Quantos fósforos encontrarei à deriva?

… deve ser isto:
Raízes quadradas sem equação
Problemas ressonados na imaginação
Quantos rótulos serão afixados?

… deve ser isto:


*

(quadro de munch)

tsunami



já ouviste falar em reconciliação?
já te disseram que a morte é uma pedinte que anda na rua em corpos emprestados?
já te avisaram que vais morrer?
sabias que amanhã pode ser apenas uma palavra no teu testamento?
percebes agora porquê que as árvores crescem velhas e suportam tempestades?não ententes que a vida é um rio que corre para o mar?
compreendes porventura a foz entre o horizonte e a memória?
sabes ao menos quantos dias penduras no pensamento?
lembras-te de ser criança?
reconheces a infância e o encantamento dos pássaros?
quantas vezes respondeste que sim?
queres casar comigo?
pronuncias-te ou calas-te para sempre?

*

(quadro de jackson pollock)

quero-te



acordei húmida a pensar em ti.
com o coração a bater no clítoris.
e sei que este pulsar foi punição.
por ter procurado a tua mão.
fiquei deitada de bruços na cama.
a tentar aturar a imagem.
de quando vens sobre as minhas costas.
e do teu peso quando me penetras.
eu quero que me escrevas um verso no útero.
com os teus dedos e com o teu esperma.
agarra-me e desmaia comigo.
neste centro do universo.
a tua boca é um par de borboletas siamesas.
quero voar contigo.
quero afundar-me em ti.
deve ser esse o céu que deus promete.

*

(fotografia de autor desconhecido)

2006-09-06

paixão sofrida



Algo renasce e morre ao mesmo tempo, tudo com medo de poder ser desviante e de forma perigosa, alento de desespero que transtorna qualquer ser, é o máximo de sofrimento. O luto está instaurado neste turbilhão de sentimentos que merecem ser esquecidos. Tristes dias estes sem esperanças à vista, está tudo muito escuro, cinzento, apetece desaparecer para outra pessoa ou outro mundo… estou encharcada deste, nada me alegra, apenas aquele sorriso lindo e ternurento que me preenche. Que crise existencial, e nem falando nem agindo, nem nem nem nem é um pequeno enorme desentendimento com o meu eu. Quando isto terminará. Desde há alguns anitos que estes problemas têm feito, será o espelho que está todo estilhaçado? é horrível sentirmo-nos tão pequeninos quase inexistentes. Apenas a pele que se demonstra no exterior é que se tenta colocar a máscara para sobreviver nesta selva onde ninguém ninguém… ao fundo do túnel. ..estará a ser um mar vazio?
Porque não me vês, não me dizes algo, ignoras-me, não queres nada comigo, estou a persistir demasiado o que queres de mim, nada rigorosamente nada, então porque dás e depois tiras? Estás a montar um puzzle com os meus sentimentos é apenas um acto de charme para ver se me destróis e agora que faço diz-me…tens algo para me dizer ou apenas queres… não sei passar o tempo…Não tem nada a ver comigo…mas deixa, isto passa, não te preocupes, tudo passa, é uma questão de tempo, logo a seguir aparece algo para distrair a cabeça. OK? E nem um telefonema, nada rigorosamente, o silncio que paira no ar, será que irá enviar-me uma mensagem, não acredito.
Todos os dias tinha a esperança de algo acontecer, sonhava ontem nem consegui adormecer, estava bastante nervosa pois pensava que irias hoje reagir, mas infelizmente foi tudo em vão, porque me fazes isto, não sentes o mesmo, será que és assim tão bem formado que me envias uma sms para pedir desculpa simplesmente porque não tiveste tempo para mim.
E hoje como irás reagir, e eu irei ficar impávida e serena como se nada tivesse se passado.
Apenas o desprezo e a indiferença…estou farta dessas indiferenças, apetecia-me dizer que estou a sentir, era como se algo de mais profundo podia acontecer, afinal…
Mas não seria bom demais para mim, não é? Nunca irei ter esse privilégio, alguém sentir o mesmo ao mesmo tempo que eu.
Mas porquê? A mim acontece este tipo de coisas não dá para acreditar.
Só grandes desgostos, só grandes lutos, numa solidão que me atormenta a vida. As realizações estão aquém do esperado, o que desejava para mim, o que ambicionava nada …
Cheguei ao ponto de andar por arrasto, passo um dia de cada vez, por arrasto, e pedir a Deus que amanhã seja melhor. Que possa rir de felicidade nem que seja por momentos... Ou ter algumas realizações por momentos.
Aqui estou, no meu local de trabalho, à espera que o tempo passe para novamente meter-me no carro rumo a casa. É uma miséria de vida…tenho algo que me preenche, mas tendo estas ondas negativas que me invadem, já nem consigo ser ou ter capacidade para fazer alguém feliz.
Tirem-me deste filme… já chega…
tenho que o ultrapassar.
A inutilidade do ser o que faço aqui perdida sem saber a direcção correcta, o que queres da vida?


*

(texto de marília, quadro de júlio pomar)

*

"... junto te envio dois textos que gostaria muito que publicasses no teu blog e colocasses uma imagem..."

é para mim um honra publicar estes dois textos, obrigada amiga pela distinção, fico-te ternamente reconhecida, um grande beijinho para ti

da marília



Em termos de mudança, deixa a interiorização de sistemas que alternam com o sinónimo de compartilhar a eficácia ou não de uma estrutura capaz de fragmentar as alterações de uma macro situação anterior ao que se situa para além daquilo que não pode ser transportado.
Impede de ser o sustentável de toda a geração ao elevar os números e alcançar o propósito de que há muito era previsto. Assim, a filosofia tem como rumo o ser da questão que é simplesmente o facto de existir.
Podemos então estabelecer uma sequência lógica e alternada por suposições alienáveis do próprio ser. O ser pode ser transferido para a parte superior do pensamento. As conversações são bastante interessantes, resultantes do clima sentido e ultrapassado pelo homem que está para aparecer. No meio ambiente, a sensação pode colmatar a navegação pelo barco que transborda a água de cor azul. A escuridão pode ser vista como um prefácio do que pode acontecer e naquilo que é suposto acontecer. Mas no futuro, o barco poderá navegar pelo oceano ou simplesmente afundar na situação prevista.
Como tem sido discutido, a passagem de um ser para o não ser é perfeitamente clara, logo, as forças do vento saberão o que fazer. E tudo está direccionado para o objectivo principal que é enriquecer o indivíduo de uma postura adequada e complexa.
Vamos então fazer um resumo de tudo o que poderá acontecer, a questão coloca-se em aparecer o formato que é pedido ou não.
Questões que nunca devem ser colocadas para nunca serem respondidas.
A vertigem de cair e ser apanhado pelo vento é a sensação gelada do abismo. Vamos então idealizar o paradigma da construção do pensamento. Claro mas ambíguo, só um ser superior dotado de inteligência é capaz de o desmistificar e de explicar ao homem comum sua composição. A mentalidade e a transferência do negativismo parece contribuir de certa forma para o envelhecimento prematuro do indivíduo. A razão pela qual o enviezamento se ajusta a determinados comportamentos é o garante desta teoria idealista do ser. Parece bem dizer que todos temos aspectos negativos que nos alteram o caminho a percorrer e formatando o sentido da vida.
Perante a realidade interior e o desalinhamento da personalidade são aspectos relevantes do mítico de geração incapaz de se definir numa perspectiva evolucionista e desenvolver projectos capazes de sacrificar os múltiplos factores ambientais da raça humana.
São as quatro coisas que o rebento irá ser quando for grande, bonito, saudável, inteligente e amigo da mamã.
O túnel profundo e escuro, longe de ter um fim permitindo o extinguir da percepção do real e da ficção, tornando o barulho como entrave para o seu desenvolvimento precoce.
Voltando ao contacto da espécie humana é fácil de distinguir o que se torna a trapalhada das vivências ocasionais de pleno terreno.
A consequência da verdade pode ser a falha de uma vida inteira de evasões de conflitos que transformam o ser num imaturo e complemento dependente de outrem. Ao estabelecer as margem de manobra da situação de filtragem da ocasião e da paixão de universo resplandecente da liberdade da vida.
Logo se inicia a vida da satisfação e glorificação da alma que se irradia a luz da solidão.
Podemos falar da imensidão dos sentimentos sem deles esperar nada pois tudo o deseja fazer logo temos que nos distanciar da sombra que nos persegue.
Delirar permite as escorregadelas do espírito e das palavras que nunca devemos usar, pois nos trazem alegria e tristeza. Mas sofremos como aqueles que são infinitamente maus e sabem atormentar a vida de qualquer mortal.
Tempo e tempo que esgota sem darmos conta que por vezes desejamos que passe e outras que dure uma eternidade.
Amanhã acabará a luz dos teus olhos onde depositei os meus sonhos de realização e de paixão, ficará no amanhecer e no por do sol todos os desejos que racionalizei e senti por ti. Estás longe como se estivesses no buraco do sol e a brilhar, mas sem puder lá chegar, assim não sofreria as queimaduras do amor.
Vamos todos ficar presos às lembranças que estão no nosso consciente até que a alma desapareça e se transforme num turbilhão de raiva e de vingança. Encontro-me só nesta fileira de aberrações que me atormentam os meus pensamentos divinais e me arrasam de inveja de não puder compreender as suas reais pretensões. Vão embora pois já perdi a hora de voltar à alegoria do ser e do imortal das transformações mútaveis que despertam a curiosidade de alguém que pode perder tudo e morrer.
Escutar, que saturação ao ver que as palavras são apenas maneiras de expressão que nos cansam de desespero da própria realização, portanto, nada escuto, logo, nada sinto e quero esquecer a imensidão de palavras que pairam no vazio das cortinas da luz.
Esqueço porque quero, apenas penso e tento analisar as acções que se arrastam pelo barulho infinito da boca de alguém que não pára de falar e polui o ambiente na versão invariável e irracional de atormentar a vida humana do animal vestido de homem cruel.
Vejo coisas que mais de cores e fusões da libido consegue alcançar, permitindo a fobia de não estar e fugir para o universo alienável do corpo.
Recordo a inveja do trauma da percepção pública do esgotamento das ideias da poesia e transferir o lado perverso para a polidez da nudez.
Entendo como será bom ir para a sensação de glorificação da pele morena e da plena robustez das chacras dos lábios famintos de gestos incontroláveis da arrelia.
Faço o exagero de estar sozinha e controlada para não perseguir o caminho que não posso direccionar e relacionar com os outros.


*

(quadro de leonardo da vinci)

2006-08-31

carta diamante



já não anoitece, meu amor
a escuridão reformou-se

quando tu choraste
há quarenta e oito horas

que é dia
sabias que as searas
imitam os teus braços?
e as flores

a dança do teu ventre?
sopra uma brisa que agita
o chão do mundo
a natureza inteira persegue
o brilho das safiras
só disponível
nos teus olhos
enquanto a lua apodrece
ao meu lado
o mar arrasta

os destroços dos cometas
nos teus cabelos de prata
depois de ti
a eternidade
é um banco de areia
onde as orcas vêm acasalar

no dorso luzidio
espelham o retrato
do nosso amor
sem herança

*

obrigada, isabel, por me ter citado, bem haja, um beijinho

*

(fotografia de jaime silva)

2006-08-30

não tragas rosas



não tragas rosas, meu amor
traz o embrulho com pedras
para que possam vestir-me
palavras de que te arredas

com olhos para cobrir-me
desse desejo tardio
de volúpia libelinha
a dançar no corpo frio.

vem c’oa chuva cantarinha
beber-me o sexo em sossego;
e se assoma à amurada
do castelo eu não nego

a sorte que na alvorada
solta no loendro o esperma
da morte que se redime
no coito fácil que enferma.

não tragas rosas, meu amor
traz pedras, pedras, mais pedras
porque os nossos corpos lúdicos
têm o sol das veredas.

*

autor: José Félix

(quadro de salvador dali)

2006-08-25

desafios



a amiga licínia quitério teve a amabilidade de nomear este blog no jogo de etiquetas.

agradeço a sua nomeação e etiquetas a este blog e passo a citar seis amigos para o efeito:

*

alberto serra: a melhor poesia da minha vida

isabel mendes ferreira: o melhor piano do universo

vanda: a melhor repórter emocional da blogosfera

vanessa: a melhor dose de papel e música aos pedaços

claudia: as melhores palavras são mentiras históricas

francisco carvalho: o melhor blog nu singular para ler no plural

*

(fotografia de mitchell miller)

2006-08-18

assim me aconteces



no primeiro dia sem ti
o luar grita, meu amor
deste lado mais branco
ouve-se o canto virgem
dos livros por escrever
sabes que te deito e velo
todas as noites te adormeço
perto das palavras puras
quantas voltas tem o mundo
quando o sono te abraça?
onde estás pontuado na
vírgula do sonho que te leva?
como perdoar a literatura
por te aprisionar num poema?
diz-me que há algodão
dentro das estrelas
dá-me a tua mão nuvem


*

(fotografia de augusto peixoto)

o grito



para o rafael

a noite entra devagar no dia
tacteia-lhe o ventre como um amante
sobe-lhe a extinção da pele em sombras
lambeo-o de sal no princípio do medo
abre-lhe os fios que acordam as narinas fundas
rasga-lhe as meias que desbotam turvas
percebe-lhe a liquidez monótona
descalça-lhe os dentes pretos
e começa a matá-lo

o sono é um monstro sem dedos
ataca a urina das crianças tenras
tira-lhes as cuecas em silêncio
bebe-lhes o resto da vida em prantos
come-lhes a esperança de boca aberta
quebra-lhes o olhar sem destino
rouba-lhes glóbalos brancos
converte-lhes sonhos em células
troca-lhes os orgãos por ferros velhos
e começa a matá-las

a angústia rodeia a tristeza
toma-lhe os pulsos como algemas
bate-lhe pregos com martelos
perfura-lhe as tripas de aço
incendeia-lhe as esquinas
aparta-lhe as espinhas
aparafusa-lhe os pensamentos
pendura-lhe incertezas
promete-lhe o espancamento
e começa a comê-la

a escuridão penetra a réstia de luz
lança-lhe cabos presos
segura-lhe os braços pelos nervos
agarra-lhe a cintura em vespas
prende-lhe as tensões latentes
aguça-lhe o instinto ausente
coça-lhe os cotovelos
decompõe-lhe as vísceras
esfrega-lhe os tímpanos
e começa a comê-la

a madrugada aborta a manhã
rompe-lhe as mamas lisas
limpa-lhe os sentidos
lava-lhe as mãos em sangue
cicatriza-lhe as feridas do tempo
solta-lhe os cabelos lisos
veste-lhe roupa fresca
acaricia-lhe a testa
jura-lhe amor eterno
e começa a beijá-la

*

(fotografia de hugo amador)

um homem



Conheci um homem que tem várias mulheres no pensamento. Era um homem pequeno e raro, desses que a morte há-de levar por interesse. Conheci-o perto do mar, porque convém a qualquer actor um bom cenário. Enquanto as ondas batiam nos olhos dele, o sal foi temperando as palavras em forma de verdades. Era um homem que mentia por um orgasmo. Escrevia poemas e beijava tão bem como escrevia. Quando me tocava, o mar entrava em mim e nunca mais fugia das mãos dele. Era um homem dotado, bastava um verso para navegar uma mulher. Na verdade, era um barco, pois só um actor comete um naufrágio em cada praia...

*

(fotografia de armindo dias)

sentimento anónimo



sei que o fantasma deambulou pelo tudo de escape
e acabou em gazes junto ao ânus do esgoto.
sei que a velha escondeu o miolo de carcaça no bidé
e abriu a janela para as rolas se alimentarem.
sei que a estação mais viável para o colapso
fica na encruzilhada sem sinalização.
sei que o acorde premido na viola do saco
se enjaula no pulso de quem o tocou.
sei que voltas amanhã.
pergunto:
como é que te chamas?

*

(quadro de picasso)

esta noite



deve haver um penedo
que sustente o céu
uma espécie de sol
na madrugada
que pondere
o pensamento
o lume das velas
não chega
para suster
a lua
ainda assim
é a luz que
modera esta
conversa improvável

*

(fotografia de diogo sarmento)

deslumbramento



não veio ninguém, meu amor
procurei todo o dia a palavra
que defina o efeito de ti em mim
e não houve um murmúrio
nem sequer um prenúncio
nada que me aflorasse à boca
é agosto lá fora mas o verão
sem querer sentou-se côncavo
no meio das minhas coxas
e começou a chover, meu amor
não sei onde está a resposta
já contei os dias e as dúvidas
tu sabes que não confio em ti
tu sabes que ainda não aprendi
a ler a chuva do meu corpo

*

(fotografia de ricardo tavares)

ao telefone



tenho estado a ampará-la
à minha vulva
porque ela quer voar
nas asas da tortura
das tuas palavras
porque as tuas palavras
já não são palavras
cada uma das tuas palavras
é um dedo das tuas mãos
ao início
os teus dedos aproximam-se dela
para alisá-la
os teus dedos têm olhos nas pontas
cada olho vê um recanto diferente
da minha vulva
os olhos dos teus dedos
ficam expectantes
diante da fragilidade dela
e tocam-lhe
começam a acariciá-la
é tão frágil
tão dócil
tocam-lhe para a proteger
alisam-na lentamente
acariciam-na longamente
até que ficam cegos
os olhos dos teus dedos cegam
e começam a dedilhá-la
ameaçam-na
ela começa a cuspir
a minha vulva cospe nos teus dedos
eles estão cegos e molhados
já não a protegem
comem-na
num imenso movimento profanatório
desenham círculos à volta dela
apertam-lhe os lábios
metem-se lá dentro
primeiro um
depois outro
a comê-la
como bocas
as tuas palavras
já não são palavras
cada uma das tuas palavras
é uma boca a comer a minha vulva
todas as tuas palavras
são bocas em cima dela
tantas bocas têm os teus lábios
quando a beijas
é para acalmar o castigo dos teus dedos
aproximas a ponta da língua
e desenhas um verso
ela está molhada
e gosta da tua saliva
e cospe na tua língua
e tu juntas a boca
os teus lábios sobre os lábios dela
num beijo prolongado
comem-se
e tu também cospes
com a tua boca
lá dentro
e ela começa a arder
a tua saliva está tão quente
dá-lhe lume
acende cada poro dela
em cada esquina
há uma chama de fogo
por tua causa
as tuas palavras
já não são palavras
as tuas palavras são pénis
cada uma das tuas palavras
é um pénis a cheirá-la
até que todas as tuas palavras
se transformam num só pénis
no teu pénis viril
quando o teu pénis
entra dentro da minha vulva
ela queima
está tão quente e húmida
o teu pénis começa a arder
começa a profaná-la
o fogo sobe nas paredes dela
e o pénis cresce por dentro
em investidas de água
e mais investidas
e mais água
já não são palavras
o que escreves
são dois corpos encaixados
na profanação
são línguas de fogo a subir pelo corpo
em forma de dedos cegos
são bocas em chamas
beijos aflitos
mamilos espetados na angústia
até que os lambes
vens com a tua boca a arder
da vulva sobre os mamilos duros
e desfazes os caroços nos dentes
devagar
tão terno
sempre a enterrares o pénis
dentro dela
sempre mais
até que as mamas dançam à tua frente
desafiam os teus olhos
provocam os teus dedos
e as apalpas
torces os bicos nas palmas das tuas mãos
as tuas palavras dançam
comem-se
encaixam-se
apertam-se
vêm-se

*

(fotografia de eric kellerman)

coisas escritas



conheci um homem que tinha uma paragem de autocarro dentro da cabeça. todos os dias vinham alterar os papéis dos horários oara evitar atrasos na carreira. uma vez não vieram e as pessoas foram de táxi pelo corpo dele. ao chegarem ao peito viram que tinha um bom coração e desceram para admirá-lo. outras seguiram viagem até aos joelhos e ficaram na zona sul a contemplá-lo. as pessoas que ficaram no coração do homem cairam num precipício e nunca mais voltaram. as outras que ficaram nas rótulas depressa apanharam um avião na pista de sentido único. moral da história: o homem não anda de bicleta.

*

(quadro de salvador dali)

anagrama



Lá fora a cidade dorme
Onde eu cresci sonâmbulo
Ruas sujas como promessas
Dor e lixo dentro do sono

Podia acordar e ser grande
Odiar o vazio circundante
Sentar-me no pensamento e
Envenenar a criança no
Imediato do crescimento mas
Deito-me sempre acordado
Ouço o grito da tarde e
Nunca envelheço as horas


*

(fotografia de reinaldo fero)

para o dark



ontem dei por mim a passar por ti, não vou dizer aonde, estavas de costas, viravas a cabeça, vias-me pelo canto do olho e algo nas cores da roupa te cambiava o tom do olhar, sorrias a meio da boca, torcias os lábios, nada dizias, eu parada na montra a decifrar as mensagens dos carros a passar no vidro, tão depressa, tão inútil, tão arrepiada na curva das pernas onde o teu olho bicudo furava, tão depressa, tão profundo, só a paragem do metro testemunha, e os sacos das compras encostados, asas de plástico no meio de nós, não te lembras?

*

(fotografia de margarida araújo)