2006-08-18

anagrama



Lá fora a cidade dorme
Onde eu cresci sonâmbulo
Ruas sujas como promessas
Dor e lixo dentro do sono

Podia acordar e ser grande
Odiar o vazio circundante
Sentar-me no pensamento e
Envenenar a criança no
Imediato do crescimento mas
Deito-me sempre acordado
Ouço o grito da tarde e
Nunca envelheço as horas


*

(fotografia de reinaldo fero)

para o dark



ontem dei por mim a passar por ti, não vou dizer aonde, estavas de costas, viravas a cabeça, vias-me pelo canto do olho e algo nas cores da roupa te cambiava o tom do olhar, sorrias a meio da boca, torcias os lábios, nada dizias, eu parada na montra a decifrar as mensagens dos carros a passar no vidro, tão depressa, tão inútil, tão arrepiada na curva das pernas onde o teu olho bicudo furava, tão depressa, tão profundo, só a paragem do metro testemunha, e os sacos das compras encostados, asas de plástico no meio de nós, não te lembras?

*

(fotografia de margarida araújo)

escotoma



quando ali me sentava
os anzóis prendiam as sombras da tarde
a ganir com o cio
se a água do rio ao menos vazasse a prata sem dor
ou os meus pés fossem canas de pescar sapatos
mas ali sentada diante do nada
era lume brando a cozer traições

e a agonia dos peixes na berma da água
era o fim dos teus olhos a acabar a tarde

se ao menos os barcos passassem de véspera pelas ilusões
ou as redes vazassem sonhos menos fáceis
mas ali sentada com a alma trocada
pescava o diabo e as tentações

ainda que eu cruzasse a solidão entre as pernas
o cio esganava o brilho da prata caído no chão
mesmo que os anzóis mordessem a margem
nunca a rota dos barcos me corrigia a alma
e ali sentada de pernas cruzadas
não tinha calçado

nem canas de pesca
para a solidão

*

escotoma means "you shall see what your mind wants you to see"

*

(fotografia de anhandc)

único



Quando a tua mão guiou a minha
Todos os autocarros esbarraram na tua casa
E o barulho ensurdecedor da rua emudeceu nos teus lábios
E os vidros espalhados na costura da roupa
Fizeram o sangue infringir a velocidade
Já não sei o tempo que levou
O socorro a chegar-me ao céu-da-boca
Uma bomba de oxigénio a entupir-me
A respiração impossível salva devagar
Foi ainda há horas mas o meu corpo mente
Desacredita do teu por entre as grutas
Dada a improbabilidade do ângulo
Mas as pernas pesam-me nos olhos
Quis dormir para acordar do sonho
E nem as buzinas despertam o meu ser
Ouço os carros lá fora a passar
Na cadência fúlgica da tua respiração
Que nem o semáforo impediu de parar
Vejo ainda as tuas mãos possessas
Os teus olhos cada vez mais brancos
A janela a boiar nas mentiras lá fora
E a ciência é contrariada nas coxas
A matematicidade desmente esta fusão
Que dirá o teu dentista sobre isto?
Receitar-te-á um veneno paralisante?
Ou algo que impeça o torpor das veias?
Dir-te-á para comeres papas e assim poupares a boca à minha pele?
E tu, que dirás sobre isto?
Desejar-me-ás boa viagem na hora de ponta?
Pedir-me-ás que me venha depressa mas com cuidado?
Ou sugeres antes que desapareça no túnel que abriste sem retorno?
E eu, que direi sobre isto?
Direi talvez que te engoli pelas nádegas
Direi talvez que demos corda ao mundo
Que giramos quando a terra parou
Que o acidente lá em baixo é a prova do crime
Que veio a polícia em figura de bigodes fartos
Que as prostitutas entraram aqui no prédio
Que uma delas violou o teu quarto
Que me vendi pelo tédio da viagem de hoje
Que te exigi uma identificação branca
Que não me vim por reserva marcada
Que quis vir-me depois nas tuas costas
Que me rendo
Direi isso

*

(fotografia de luciolia)

sintomas do amor súbito



primeiro sintoma: a rejeição
creio que a própria morte seria mais doce
do que o peso do não que te disse
e que levo anexo aos olhos
a bulir nas pálpebras

segundo sintoma: a insónia
agora, o teu silêncio grita-me
e eu não posso dormir
tu és o sol e os risos
na concavidade das minhas coxas

terceiro sintoma: a procura
perdoa-me vir aqui a estas horas
falar-te sobre coisas puras
mas eu não sabia que podia amar um desconhecido
e preciso de ti dentro de mim

quarto sintoma: a aceitação
eu converti-me num ser líquido
quando a tua voz me prometeu calma
mas ainda não me vim
porque quero os teus olhos no meu sexo

quinto sintoma: o desejo
eu tenho fome de ti
quero sentar-me no teu corpo
e comer das tuas mãos
e beber do teu sangue branco

sexto sintoma: o delírio
a chuva está agora a escrever
o nosso encontro fora dos corpos
mas a literatura não se compadece
sem a fusãodo nosso amor súbito

*

(fotografia de josé reis)

prognóstico reservado



hoje de manhã, fui ao ginecologista
na verdade, já nos conhecemos há muitos anos, desde muito antes do mundo ter dado as voltas necessárias para que eu viesse a trabalhar no mesmo hospital que ele
como há muitos afectos entre nós, trato-o simplesmente por gi
vi-o agarrar uma caneca de café na sala comum e segui-o até ao gabinete
pelo canto do olho, piscou-me as perguntas do costume
eu, no meu habitual humor dramático, fui directa ao assunto:
- o meu corpo não pára de chover há três dias
ele riu-se, eu podia ter dito que não parava de morrer, ele ria-se sempre
pousou a caneca, arregaçou a manga e enfiou-me o punho até ao útero
já sei de cor os dedos dele a abrir-me enquanto fala do tempo lá fora
carrega o sobrolho e sei que desta vez foi mais do que um afogamento
- estás apaixonada, linda, é algum dos teus pacientes?
nesta pergunta vulgar entre colegas, afunda-se o abismo ético subjacente
- não, mas desconfio que é alguém aqui de dentro
ele hesita entre o colega de ortopedia e o cirurgião vasco
eu ri-me, ele podia ter dito que era o segurança, eu ria-me sempre
ele castigou-me os nós dos dedos com fricções nada meigas
virei as mãos para assar melhor do outro lado
- ele propôs um encontro do outro lado da rua, disse-lhe
o gi adora servir moral ao pequeno almoço:
- o teu marido é o meu melhor amigo, sou padrinho da vossa filha...
- ficou na intenção, garanti-lhe, inventei uma distância que não existe, uma profissão que não exerço, um carro que não conduzo, fotografias suspeitas e ele não veio
- promete-me que vais à dermatologista, pediu-me
- quando as primeiras esferas de água rebentaram na minha pele, a madalena estava de serviço e sugeriu apenas hormonas saltitantes
o meu bip apitou anunciando a próxima consulta
- tenho um desfuncionado eréctil à minha espera, disse-lhe
- caso resolvido, então, brincou, assim que pingares, ergue-te uma estátua
enquanto vestia a bata, desejei que a gíria clínica pudesse revelar-me o teu nome

para o duarte



eu: sabes o que é o amor?
tu: sei, o amor é gostar muito
eu: e sabes quanto é muito?
tu: muito é mil
eu: então, o amor é mil?
tu: o amor são cinco milhões

é assim que uma criança de cinco anos nos desarma irremediavelmente
gostava de poder reter numa frase, dado que não me aventuro a ousar reter numa palavra, a sensação de ti comigo
ao meu lado jaz um dicionário velho, grosso e pesado que a minha mãe me deu para descobrir as palavras todas e nem ele encerra tal sabedoria
procurarei escrever sem reservas, ainda que só o teu olhar austente tal prodígio
quero, antes de mais, dizer-te que, para mim, foi um passo em frente na vida conhecer-te (o que aconteceu no dia 6 de abril de 2006)
disse-te que não conheço outras pessoas da tua idade e, talvez por isso, não sabia como seria eu contigo
e foi por não saber ser eu com alguém maior do que eu que procurei purificar-me dessa fragilidade devorando as sobras da tua idade na cozinha
o teu pai disse-me mais tarde que não havia necessidade de eu ter tido todo aquele trabalho, mas ele ainda não sabe das lides domésticas no meu sotão mental
repara que é extremamente complexo escrever-te sem recorrer aos substantivos maiores que a literatura oferece
no momento, só me ocorrem nomes próprios como grandeza, infinito, sapiência, vida, violência, pureza e extinção
como efectivamente não sei falar de ti em mim sem me socorrer destes desígnios, vou agora tentar, repito, tentar, decifrar-lhes o sentido, mais para mim do que para ti, honestamente, perdoa-me o meu ego
sabes, d., a alice é uma pessoa que se sente pessoa e que se sente humana antes de tudo o resto que como pessoa sente
e a humanidade da alice não deixa espaço a verbos maiores do que ser
e ser humana, sabes, é para a alice uma tarefa tão escorregadia como lavar o frigorífico
a alice é uma pessoa frágil, quebra com a facilidade de um copo ensaboado
mas é a essa fragilidade que a alice vai buscar a força de um abraço
e um abraço, d., é a solução de muitas perguntas sem resposta
e nesta resposta de um metro e dezassete cêntrimetros encontrei a tua grandeza
não é nada fácil falar do infinito, sabes
porque reside na alice a dimensão do universo e simultaneamente a inutilidade do pó
desculpa interromper para pedir perdão ao pó pelo insulto
eu podia acrescentar o adjectivo inteiro ao universo, mas duvido da sua homogeneidade
oxalá também tenhas um dicionário igual ao meu ao teu lado quando leres isto
as mães são peritas em dar aos seus filhos coisas que nunca lhes farão falta
é aí que quero chegar, d., à eternidade que a descendência e só ela aufere
e é aí que tu és infinito
agora tenho de falar primeiro sobre o desconhecimento
quando não sabemos algo, não sabemos que desconhecemos algo
e quando algo se sabe, sabemos que o desconhecíamos até então
entre o saber e o conhecer existe ainda assim algo desconhecido
e é nesta fronteira entre a realidade e a poesia que fica a tua sapiência
confesso que me sinto inteligente a construir estas afirmações
mas as minhas palavras nada valem diante da obra de ossos e sangue que pulsa no teu corpinho lindo
fazer um filho como te fizeram é a vida em ti
seres filho da vida é a tua violência, é simples
porque o mundo onde nasceste não se compadece com a tua inocência
o mundo, d., ensina a destruir a tua pureza
és ainda um tempo de infância, meu querido
e essa espécie de amor está em vias de extinção
agradeço-te o beijo que deixaste no meu coração


*

(fotografia de ricardo frantz)

morte de simães



um dia
virás aqui ler-me
tu ainda não sabes
das gaivotas surdas que tombam
nem dos tigres velozes
nos meus ouvidos
um dia
saberás da luta das aves
e do tremor da terra
enquanto fumas

um dia
virás aqui ler-te
eu ainda não sei
das correntes mudas que prendes
nem das cutículas pendentes dos teus dedos
nos meus dentes
um dia
saberei do cheiro
que guardas fora dos livros
e do poema que amas
na porta do meu corpo

um dia
virei aqui ler-me
tu ainda não sabes
da região do vinho do meu sangue
nem da curta metragem das horas
nas tuas cordas vocais
um dia

saberás do tempo
e do interruptor
que apaga o medo

um dia
virei aqui ler-te
eu ainda não sei
das patas nervosas que aumentas
nem dos olhos cansados
na pele do meu rosto
um dia
saberei dos dias que matas
e dos cadáveres
que comes ao jantar

um dia
viremos aqui ler-nos
ainda não sabemos a data
que escorre na janela
nem a saliva do beijo
da mulher que te pede um cigarro
um dia
saberemos ser dia
depois da madrugada

gravidez de risco



tudo começou com um equívoco
podia ter ficado logo esclarecido
mas o verbo entender é plural

tu eras casado e estavas grávido
eu era a irmã do teu patrão
gastamos horas a discutir o inevitável

o que une afinal dois seres?
estados civis registados?
estatutos mal intencionados?
bebés em úteros mal amados?

lembras-te da tua mulher deitada?
de me ligares do alto da barriga dela cheio de tesão?
de me ameaçares por me desejares em vão?

lembras-te do dia do parto?
de ficares comigo em casa enquanto ela se vinha?
de me penetrares no exacto rebentamento das águas?
de me engravidares no primeiríssimo choro?

lembras-te do telefonema?
quando te avisaram que eras pai de uma menina?
e choraste em esperma pelo meu corpo abaixo?

lembras-te da culpa?
do pénis guardado e logo recatado na tua vergonha?

o teu patrão despediu-te
o meu irmão rejeitou-me
a tua mulher nunca soube
mas foste tu quem pariu a tua filha


*

(fotografia de eric kellerman)

à minha procura



ainda há pouco me encontrei
cruzei-me ali comigo mesma... seria eu?
seria outra de mim que não conheço?
serei poema, pessoa, pintura ou verso?

no silêncio anónimo em que me refugio
mergulho na ressaca dos dias que hão-de vir
espero que a água me devolva o sangue
mas só a luz me enxuga a nudez

aqui encostada à porta desta casa
onde me entrego ao delírio dos sentidos
deixo a música despir-me a sombra
e adormeço de pé à minha espera


*

(fotografia de eric kellerman)

a quatro mãos



I

Sanamente mas propositadamente
Fiz aproximar a folhagem dos cabelos
Ébria numa estrutura simplificada e uniformizada
Ramificada em paciência ondulada
Pouco deitada…
Ainda que silenciosamente adivinhada
Silêncio…
Denso silêncio
As palavras parecem bastar
Neste momento de permanência…
reminiscência
Insolência
No puro acto de te soletrar
Os sentidos
Mil línguas nos teus ouvidos
Respirando-te o corpo liberto
Entendido no domínio completo
Profundo…
O fulgor alimenta entreaberto
Tudo o que é exacto e pouco certo
Não…
Não me peças para desenhar o sono

II

entre aspas chamei-te flor de espinho
desde a raíz das têmporas
à sílaba prodigiosa do meu leito
vieste insano e puro profaná-lo
numa diáspora informe e livre
prima da insónia moribunda
fevereiro foi o nome do desejo
ainda as nuvens encobriam
o meu corpo de brasa acetinado
o inverno sabe a pólvora crua
o tempo desceu pelo ano abaixo
foi carregando o ardor profeta
incendiando o mar de quimeras
sem perdoar o brilho da inocência
quando foi que me tocaste?
em que dia violaste o retrocesso?
que veneno me assombrou a memória?
qual o feitiço que rezaste?
não respondas
deixa-me adivinhar-te os gestos


*

(textos de miguel e alice, quadro de picasso)

preâmbulo



A ponte que une a minha aldeia à tua cidade é um teclado avariado na clave de sol. Sempre que venho da horta do meu passado, detenho-me aqui, junto do pilar onde nos beijamos naquele primeiro dia do mês sem calendário. Ao longe, do outro lado da estrada entre dois braços, fica o cemitério dos comboios. Antes, vínhamos ambos a pé pela linha tracejada a contar as tábuas que nos faltavam para chegar. Tu rias-te muito alto até o eco levantar os pardais dos ramos da saudade. Eu urinava pelos pregos de ferro abaixo até colar pedras às cuecas. Agora, a mata cobriu o caminho do nosso amor sem palavras e violou os ninhos das asas por bater. A imagem que guardo deste lado da margem é a da viagem da separação. Já não sei há quantos anos o rio corre desafinado no verso sem refrão. Nunca te disse nada, mas se hoje vieres a minha casa, põe uma rosa no piano e toca-me baixinho. Amanhã quero apanhar uma nave com rumo ao teu coração.

*

(fotografia de augusto peixoto)

não te deixarei morrer, amor



quem és tu que avanças o tempo no meu calendário?
que o escrutinas como no talho e divides em doses duplas?
pago-te a carne cirurgicamente cortada
e levo-te pendurado em mim até ao congelamento cínico
escolho a gaveta que promete melhor temperatura de conservação
e quase desejo esquecer-te
que esta seja uma câmara fúnebre irretornável
que o gelo devore a etiqueta da tua identidade
como um sopro de cera nas velas do teu quarto
que nunca a fome me faça recuperar-te no microondas
que a sede encoste ao lado da razão partida em farpas
que a minha boca possa ser líquida como antes
que o teu barco desencalhe e não derrame petróleo
na escuridão
quase desejo violar-te
separar-te em grãos no fundo de uma chávena
fumar-te consciente dos malefícios do tabaco
arrancar-te as gengivas e acompanhar com natas
passar o resto no triturador um dois três
saber em um que móis
em dois que dóis
em três que matas
fulminar-te na cama
e profanar o descanso da criança em chamas
quase desejo penetrar-te
lavar-te a trinta graus com analgésicos
secar-te no ponteiro das roupas delicadas
e enxugar-te depois com estaladas
eis a minha vingança
voltarei a ti num dia em que estejas acordado
vou esfregar a louça que entope a banca da tua consciência
e meter-me como açúcar nos teus dentes
deixa-me entrar em ti
quase desejo perdoar-te
tirar do frigorífico a fatia de sono dos teus genes
e adormecer


*

(fotografia de helder rodrigues)

2006-07-25

under cover

(fotografia de autor desconhecido)
*
*

fully clothed i stand
invisible my lying naked body
laughing i greet
invisible my crying bared soul
loudly i shot
invisible my tiny whipering voice
fast i run
invisible the fairy steps i make
higher i jump
invisible the hardness of the fall
*
*
from london
*
*
(a quem souber o nome do fotógrafo, agradeço que me informe para atribuir o respectivo crédito)

2006-07-23

tatuagem




não te chamei
não te pedi
vieste
pela margem da fala
alice te abençoo
neste tremor de palavras aflitas
vejo-te na paz da escuridão
e não conheço o teu rosto
mas a palavra
essa entidade divina
é capaz de nomear um rosto
semear melodias
na surda ausência do grito
alice do país das ignotas maravilhas
alice dos mágicos amanheceres
tens em mim
a lágrima
o extremo do sorriso
e estas mãos suplicantes
que te abençoam
ao chegares anónima
à página em branco
onde começam todas as utopias
e a palavra ama
como uma boca sedenta de luz
quando a treva
ameaça com o seu olhar de sombra tombada
diz-me alice
que me queres à cabeceira dos sonhos
que me sonhas no prado polvilhado de estrelas
alice vem até mim
no doce ondular
da madressilva
a minha morada
cheira a tílias
e o meu sangue chama por ti
num fio de orvalho
mostra-me como pulsa a tua alma
inventa-me no presente
aloja-me no segundo coração
onde o passado a que pertencias
se transformou na fonte
cuja àgua limpida e primordial
apaga todos impossíveis
dá-te a conhecer na palavra mínima
vem até mim na nota máxima
(...)

*

autor: Alberto Serra

2006-07-17

"angels in venice"

(imagem de nuno santos)
*
*

Caminhamos sempre pela neve tu e eu.
Os pés são feridas de uma brancura enorme e nefasta.
Os pés são chagas vivas que reluzem à luz morna da fogueira.
Viemos de um sítio a que chamamos norte e princípio.
É o lugar mais límpido onde tudo começa.
Dá-me a tua mão, disseste.
Dei-te, e contemplamos as estrelas.
Onde gostas que te toquem, perguntei.
Gosto que me toquem nos sonhos.
E assim foi.
*
*
toca-me

2006-07-15

agradeço este poema

(fotografia de paula neves)
*
*
a alice mora aqui
faceira e redondinha
vai para a fonte velha
à água cantarinha.

não parte a bilha, não
nem vai cedo, ligeira,
caminha devagar
e vai namoradeira.

no meio do caminho
encontra um fauno jovem;
de pã a flauta encanta
e as cotovias fogem.

a tarde vai caindo
na flora clara e virgem
com a luz espreitando
na noite de salsugem

quando raia o dia
o fauno se despede
do corpo oferecido
e que a ramagem pede.

a alice que mora aqui
vem de (*)
se vem do rio (**)
vem com sabor a mel

atentem nesta história
pode ser verdadeira
se tiverem memória
que vela a vida inteira.

alice ou capuchinho
cada qual com o seu lobo;
fauno, juan, casanova
todas levam seu cobro.

no país das maravilhas
assim vai, vem, alice
com a bilha sem água
mas rosto de felice.

e por aqui me fico
já basta tanta trova
não vá alguém pensar
que sou uma águia brava.

autor: José Félix

*

(*) omissão do nome da cidade do texto original
(**) omissão do nome do rio do texto original

2006-07-11

uma semana não basta

(quadro de paula rego)
*
*
Pelo lado errado do dia seguem em bandos as palavras rente às almas que num beijo migram de uma boca para outra boca. Tenho a sebenta inclinada no sumário do fim do mundo como cábula precisa onde se inscrevem os mil demónios do meu juízo. Estou sentada no banco do parque a ver o lago a passar por entre as folhas que cobrem de estrume a minha saia cada vez mais magra. Estás deitado com a cabeça encaixada no meu colo como um eixo azul do céu que refulge no centro da fornalha. És talvez um sem abrigo à procura de Deus no ventre de uma estranha que veio dar pão seco aos gansos selvagens. Sou talvez uma pena da utopia possível de um cisne que com o bico agarra o bico de outro cisne e desenha o teu coração imperfeito.

Do lado torto da vida avistam-se miragens indizíveis como sonhos que acabam por ser infinitos neste vale de lágrimas. Chegaste de madrugada com a roupa rasgada e o cabelo desmaiado nos ombros do jardim. E disseste que eras espécie rara qual flor amachucada um pouco descuidada faminta de ternura. Eu não disse nada quando te aproximaste com as tuas mãos muito grandes capazes de encestar o planeta inteiro no meu peito tão frágil. Cambiamos saliva para acalmar a garganta em chamas e o verão descer em nós como o fogo que ardia na paisagem. Mudei as pernas de lugar e fiz uma cova no regaço até adormeceres sob o meu toque afinado pelo estertor da água. Li-te uma página do meu espírito com a serenidade das coisas que ambos sabíamos imortais.

No capítulo incerto do livro mais sábio perecem os suspiros da última noite em que as vozes dos olhos falaram. O verbo incorrecto do amanhecer deita-se perto das montanhas líquidas só ao alcance do peito das mulheres. Começa pelo sol parado sobre a tua cara como cimento colado ao teu desassossego. É um raio de luz imparável ou um relâmpago que rompe este ar irrespirável e te faz sofrer. O calor depois sufoca a tarde enquanto esperas pela tristeza como única promessa fiável que sucede à claridade. Choras sobre a errância pelas impressões digitais dos teus dedos alisantes tão macios que quase matam a inquietude. Choras e há uma criança que corre na falésia de um abraço que derrota a mais ténue crispação. Se encostares os lábios aos meus flancos e ouvires o mar entrar na tua máquina de escrever deixa-o lavar-te a dor.


*

para o david

2006-07-05

dedicado ao legível

(fotografia de robert farnham)
*
*
foi então que as árvores respiraram
sustentando a queda dos astros
havia pernas a pisar os ramos
indiferentes à dança das trevas
havia faróis a bailar
por entre as sombras rasas
e cabelos humanos
nos troncos da inveja

*

como explicar o desprezo do espaço?
entender o terrorismo das feras diante dos teus braços?
perceber a ignorância dos patos a debicar cristal?
compreender a estância de zelo que a água empata?
decifrar a linguagem cega dos teus olhos parvos?
definir nas plantas a génese do teu abraço?
*
*
escrito a 4 de abril de 2006

2006-07-03

último poema

(fotografia de anna simonja)
*
*

quando os teus olhos se abrem
o mar dilata a terra em ondas brancas
repara
não é quando abres os olhos
fechados cobrem horror e espuma fétida
cosidos na cara tecem dunas subaquáticas
palmos de areia pálida
raízes secas e rugas desidratadas
é a tempestade que as rega
o infortúnio vence as marés cheias de ócio
a sede avança sobre a dormência ingrata
os monstros marinhos rompem as pestanas
e começa na boca
quando os teus lábios se abrem
repara
não é quando abres os lábios
fechados tapam cavernas naufragáveis
cosidos no rosto salvam as palavras
verbos fecundos que atravessam os rios ágeis
poemas férteis por entre as cáries
é o sal que os mata
o torpor das algas na garganta
o cume das vagas redundantes
o cu da noite ali deitado
e acaba nos pulsos
quando as tuas mãos se abrem
repara
não é quando abres as mãos
fechadas cercam oceanos
cosidas no peito são duas caravelas
é quando os teus olhos e os teus lábios se abrem
que as tuas mãos voam

*

acrescento importante comentário de vasco pontes, a quem agradeço a referência: "De Camões a Pessoa - AViagem Iniciática (SeteCaminhos), com pinturas e textos de Ellys e poemas de Maria Azenha, é o livro que será apresentado na Casa Fernando Pessoa no próximo dia 17 de Julho pelas 18h30"