2006-08-18

para o duarte



eu: sabes o que é o amor?
tu: sei, o amor é gostar muito
eu: e sabes quanto é muito?
tu: muito é mil
eu: então, o amor é mil?
tu: o amor são cinco milhões

é assim que uma criança de cinco anos nos desarma irremediavelmente
gostava de poder reter numa frase, dado que não me aventuro a ousar reter numa palavra, a sensação de ti comigo
ao meu lado jaz um dicionário velho, grosso e pesado que a minha mãe me deu para descobrir as palavras todas e nem ele encerra tal sabedoria
procurarei escrever sem reservas, ainda que só o teu olhar austente tal prodígio
quero, antes de mais, dizer-te que, para mim, foi um passo em frente na vida conhecer-te (o que aconteceu no dia 6 de abril de 2006)
disse-te que não conheço outras pessoas da tua idade e, talvez por isso, não sabia como seria eu contigo
e foi por não saber ser eu com alguém maior do que eu que procurei purificar-me dessa fragilidade devorando as sobras da tua idade na cozinha
o teu pai disse-me mais tarde que não havia necessidade de eu ter tido todo aquele trabalho, mas ele ainda não sabe das lides domésticas no meu sotão mental
repara que é extremamente complexo escrever-te sem recorrer aos substantivos maiores que a literatura oferece
no momento, só me ocorrem nomes próprios como grandeza, infinito, sapiência, vida, violência, pureza e extinção
como efectivamente não sei falar de ti em mim sem me socorrer destes desígnios, vou agora tentar, repito, tentar, decifrar-lhes o sentido, mais para mim do que para ti, honestamente, perdoa-me o meu ego
sabes, d., a alice é uma pessoa que se sente pessoa e que se sente humana antes de tudo o resto que como pessoa sente
e a humanidade da alice não deixa espaço a verbos maiores do que ser
e ser humana, sabes, é para a alice uma tarefa tão escorregadia como lavar o frigorífico
a alice é uma pessoa frágil, quebra com a facilidade de um copo ensaboado
mas é a essa fragilidade que a alice vai buscar a força de um abraço
e um abraço, d., é a solução de muitas perguntas sem resposta
e nesta resposta de um metro e dezassete cêntrimetros encontrei a tua grandeza
não é nada fácil falar do infinito, sabes
porque reside na alice a dimensão do universo e simultaneamente a inutilidade do pó
desculpa interromper para pedir perdão ao pó pelo insulto
eu podia acrescentar o adjectivo inteiro ao universo, mas duvido da sua homogeneidade
oxalá também tenhas um dicionário igual ao meu ao teu lado quando leres isto
as mães são peritas em dar aos seus filhos coisas que nunca lhes farão falta
é aí que quero chegar, d., à eternidade que a descendência e só ela aufere
e é aí que tu és infinito
agora tenho de falar primeiro sobre o desconhecimento
quando não sabemos algo, não sabemos que desconhecemos algo
e quando algo se sabe, sabemos que o desconhecíamos até então
entre o saber e o conhecer existe ainda assim algo desconhecido
e é nesta fronteira entre a realidade e a poesia que fica a tua sapiência
confesso que me sinto inteligente a construir estas afirmações
mas as minhas palavras nada valem diante da obra de ossos e sangue que pulsa no teu corpinho lindo
fazer um filho como te fizeram é a vida em ti
seres filho da vida é a tua violência, é simples
porque o mundo onde nasceste não se compadece com a tua inocência
o mundo, d., ensina a destruir a tua pureza
és ainda um tempo de infância, meu querido
e essa espécie de amor está em vias de extinção
agradeço-te o beijo que deixaste no meu coração


*

(fotografia de ricardo frantz)

morte de simães



um dia
virás aqui ler-me
tu ainda não sabes
das gaivotas surdas que tombam
nem dos tigres velozes
nos meus ouvidos
um dia
saberás da luta das aves
e do tremor da terra
enquanto fumas

um dia
virás aqui ler-te
eu ainda não sei
das correntes mudas que prendes
nem das cutículas pendentes dos teus dedos
nos meus dentes
um dia
saberei do cheiro
que guardas fora dos livros
e do poema que amas
na porta do meu corpo

um dia
virei aqui ler-me
tu ainda não sabes
da região do vinho do meu sangue
nem da curta metragem das horas
nas tuas cordas vocais
um dia

saberás do tempo
e do interruptor
que apaga o medo

um dia
virei aqui ler-te
eu ainda não sei
das patas nervosas que aumentas
nem dos olhos cansados
na pele do meu rosto
um dia
saberei dos dias que matas
e dos cadáveres
que comes ao jantar

um dia
viremos aqui ler-nos
ainda não sabemos a data
que escorre na janela
nem a saliva do beijo
da mulher que te pede um cigarro
um dia
saberemos ser dia
depois da madrugada

gravidez de risco



tudo começou com um equívoco
podia ter ficado logo esclarecido
mas o verbo entender é plural

tu eras casado e estavas grávido
eu era a irmã do teu patrão
gastamos horas a discutir o inevitável

o que une afinal dois seres?
estados civis registados?
estatutos mal intencionados?
bebés em úteros mal amados?

lembras-te da tua mulher deitada?
de me ligares do alto da barriga dela cheio de tesão?
de me ameaçares por me desejares em vão?

lembras-te do dia do parto?
de ficares comigo em casa enquanto ela se vinha?
de me penetrares no exacto rebentamento das águas?
de me engravidares no primeiríssimo choro?

lembras-te do telefonema?
quando te avisaram que eras pai de uma menina?
e choraste em esperma pelo meu corpo abaixo?

lembras-te da culpa?
do pénis guardado e logo recatado na tua vergonha?

o teu patrão despediu-te
o meu irmão rejeitou-me
a tua mulher nunca soube
mas foste tu quem pariu a tua filha


*

(fotografia de eric kellerman)

à minha procura



ainda há pouco me encontrei
cruzei-me ali comigo mesma... seria eu?
seria outra de mim que não conheço?
serei poema, pessoa, pintura ou verso?

no silêncio anónimo em que me refugio
mergulho na ressaca dos dias que hão-de vir
espero que a água me devolva o sangue
mas só a luz me enxuga a nudez

aqui encostada à porta desta casa
onde me entrego ao delírio dos sentidos
deixo a música despir-me a sombra
e adormeço de pé à minha espera


*

(fotografia de eric kellerman)

a quatro mãos



I

Sanamente mas propositadamente
Fiz aproximar a folhagem dos cabelos
Ébria numa estrutura simplificada e uniformizada
Ramificada em paciência ondulada
Pouco deitada…
Ainda que silenciosamente adivinhada
Silêncio…
Denso silêncio
As palavras parecem bastar
Neste momento de permanência…
reminiscência
Insolência
No puro acto de te soletrar
Os sentidos
Mil línguas nos teus ouvidos
Respirando-te o corpo liberto
Entendido no domínio completo
Profundo…
O fulgor alimenta entreaberto
Tudo o que é exacto e pouco certo
Não…
Não me peças para desenhar o sono

II

entre aspas chamei-te flor de espinho
desde a raíz das têmporas
à sílaba prodigiosa do meu leito
vieste insano e puro profaná-lo
numa diáspora informe e livre
prima da insónia moribunda
fevereiro foi o nome do desejo
ainda as nuvens encobriam
o meu corpo de brasa acetinado
o inverno sabe a pólvora crua
o tempo desceu pelo ano abaixo
foi carregando o ardor profeta
incendiando o mar de quimeras
sem perdoar o brilho da inocência
quando foi que me tocaste?
em que dia violaste o retrocesso?
que veneno me assombrou a memória?
qual o feitiço que rezaste?
não respondas
deixa-me adivinhar-te os gestos


*

(textos de miguel e alice, quadro de picasso)

preâmbulo



A ponte que une a minha aldeia à tua cidade é um teclado avariado na clave de sol. Sempre que venho da horta do meu passado, detenho-me aqui, junto do pilar onde nos beijamos naquele primeiro dia do mês sem calendário. Ao longe, do outro lado da estrada entre dois braços, fica o cemitério dos comboios. Antes, vínhamos ambos a pé pela linha tracejada a contar as tábuas que nos faltavam para chegar. Tu rias-te muito alto até o eco levantar os pardais dos ramos da saudade. Eu urinava pelos pregos de ferro abaixo até colar pedras às cuecas. Agora, a mata cobriu o caminho do nosso amor sem palavras e violou os ninhos das asas por bater. A imagem que guardo deste lado da margem é a da viagem da separação. Já não sei há quantos anos o rio corre desafinado no verso sem refrão. Nunca te disse nada, mas se hoje vieres a minha casa, põe uma rosa no piano e toca-me baixinho. Amanhã quero apanhar uma nave com rumo ao teu coração.

*

(fotografia de augusto peixoto)

não te deixarei morrer, amor



quem és tu que avanças o tempo no meu calendário?
que o escrutinas como no talho e divides em doses duplas?
pago-te a carne cirurgicamente cortada
e levo-te pendurado em mim até ao congelamento cínico
escolho a gaveta que promete melhor temperatura de conservação
e quase desejo esquecer-te
que esta seja uma câmara fúnebre irretornável
que o gelo devore a etiqueta da tua identidade
como um sopro de cera nas velas do teu quarto
que nunca a fome me faça recuperar-te no microondas
que a sede encoste ao lado da razão partida em farpas
que a minha boca possa ser líquida como antes
que o teu barco desencalhe e não derrame petróleo
na escuridão
quase desejo violar-te
separar-te em grãos no fundo de uma chávena
fumar-te consciente dos malefícios do tabaco
arrancar-te as gengivas e acompanhar com natas
passar o resto no triturador um dois três
saber em um que móis
em dois que dóis
em três que matas
fulminar-te na cama
e profanar o descanso da criança em chamas
quase desejo penetrar-te
lavar-te a trinta graus com analgésicos
secar-te no ponteiro das roupas delicadas
e enxugar-te depois com estaladas
eis a minha vingança
voltarei a ti num dia em que estejas acordado
vou esfregar a louça que entope a banca da tua consciência
e meter-me como açúcar nos teus dentes
deixa-me entrar em ti
quase desejo perdoar-te
tirar do frigorífico a fatia de sono dos teus genes
e adormecer


*

(fotografia de helder rodrigues)

2006-07-25

under cover

(fotografia de autor desconhecido)
*
*

fully clothed i stand
invisible my lying naked body
laughing i greet
invisible my crying bared soul
loudly i shot
invisible my tiny whipering voice
fast i run
invisible the fairy steps i make
higher i jump
invisible the hardness of the fall
*
*
from london
*
*
(a quem souber o nome do fotógrafo, agradeço que me informe para atribuir o respectivo crédito)

2006-07-23

tatuagem




não te chamei
não te pedi
vieste
pela margem da fala
alice te abençoo
neste tremor de palavras aflitas
vejo-te na paz da escuridão
e não conheço o teu rosto
mas a palavra
essa entidade divina
é capaz de nomear um rosto
semear melodias
na surda ausência do grito
alice do país das ignotas maravilhas
alice dos mágicos amanheceres
tens em mim
a lágrima
o extremo do sorriso
e estas mãos suplicantes
que te abençoam
ao chegares anónima
à página em branco
onde começam todas as utopias
e a palavra ama
como uma boca sedenta de luz
quando a treva
ameaça com o seu olhar de sombra tombada
diz-me alice
que me queres à cabeceira dos sonhos
que me sonhas no prado polvilhado de estrelas
alice vem até mim
no doce ondular
da madressilva
a minha morada
cheira a tílias
e o meu sangue chama por ti
num fio de orvalho
mostra-me como pulsa a tua alma
inventa-me no presente
aloja-me no segundo coração
onde o passado a que pertencias
se transformou na fonte
cuja àgua limpida e primordial
apaga todos impossíveis
dá-te a conhecer na palavra mínima
vem até mim na nota máxima
(...)

*

autor: Alberto Serra

2006-07-17

"angels in venice"

(imagem de nuno santos)
*
*

Caminhamos sempre pela neve tu e eu.
Os pés são feridas de uma brancura enorme e nefasta.
Os pés são chagas vivas que reluzem à luz morna da fogueira.
Viemos de um sítio a que chamamos norte e princípio.
É o lugar mais límpido onde tudo começa.
Dá-me a tua mão, disseste.
Dei-te, e contemplamos as estrelas.
Onde gostas que te toquem, perguntei.
Gosto que me toquem nos sonhos.
E assim foi.
*
*
toca-me

2006-07-15

agradeço este poema

(fotografia de paula neves)
*
*
a alice mora aqui
faceira e redondinha
vai para a fonte velha
à água cantarinha.

não parte a bilha, não
nem vai cedo, ligeira,
caminha devagar
e vai namoradeira.

no meio do caminho
encontra um fauno jovem;
de pã a flauta encanta
e as cotovias fogem.

a tarde vai caindo
na flora clara e virgem
com a luz espreitando
na noite de salsugem

quando raia o dia
o fauno se despede
do corpo oferecido
e que a ramagem pede.

a alice que mora aqui
vem de (*)
se vem do rio (**)
vem com sabor a mel

atentem nesta história
pode ser verdadeira
se tiverem memória
que vela a vida inteira.

alice ou capuchinho
cada qual com o seu lobo;
fauno, juan, casanova
todas levam seu cobro.

no país das maravilhas
assim vai, vem, alice
com a bilha sem água
mas rosto de felice.

e por aqui me fico
já basta tanta trova
não vá alguém pensar
que sou uma águia brava.

autor: José Félix

*

(*) omissão do nome da cidade do texto original
(**) omissão do nome do rio do texto original

2006-07-11

uma semana não basta

(quadro de paula rego)
*
*
Pelo lado errado do dia seguem em bandos as palavras rente às almas que num beijo migram de uma boca para outra boca. Tenho a sebenta inclinada no sumário do fim do mundo como cábula precisa onde se inscrevem os mil demónios do meu juízo. Estou sentada no banco do parque a ver o lago a passar por entre as folhas que cobrem de estrume a minha saia cada vez mais magra. Estás deitado com a cabeça encaixada no meu colo como um eixo azul do céu que refulge no centro da fornalha. És talvez um sem abrigo à procura de Deus no ventre de uma estranha que veio dar pão seco aos gansos selvagens. Sou talvez uma pena da utopia possível de um cisne que com o bico agarra o bico de outro cisne e desenha o teu coração imperfeito.

Do lado torto da vida avistam-se miragens indizíveis como sonhos que acabam por ser infinitos neste vale de lágrimas. Chegaste de madrugada com a roupa rasgada e o cabelo desmaiado nos ombros do jardim. E disseste que eras espécie rara qual flor amachucada um pouco descuidada faminta de ternura. Eu não disse nada quando te aproximaste com as tuas mãos muito grandes capazes de encestar o planeta inteiro no meu peito tão frágil. Cambiamos saliva para acalmar a garganta em chamas e o verão descer em nós como o fogo que ardia na paisagem. Mudei as pernas de lugar e fiz uma cova no regaço até adormeceres sob o meu toque afinado pelo estertor da água. Li-te uma página do meu espírito com a serenidade das coisas que ambos sabíamos imortais.

No capítulo incerto do livro mais sábio perecem os suspiros da última noite em que as vozes dos olhos falaram. O verbo incorrecto do amanhecer deita-se perto das montanhas líquidas só ao alcance do peito das mulheres. Começa pelo sol parado sobre a tua cara como cimento colado ao teu desassossego. É um raio de luz imparável ou um relâmpago que rompe este ar irrespirável e te faz sofrer. O calor depois sufoca a tarde enquanto esperas pela tristeza como única promessa fiável que sucede à claridade. Choras sobre a errância pelas impressões digitais dos teus dedos alisantes tão macios que quase matam a inquietude. Choras e há uma criança que corre na falésia de um abraço que derrota a mais ténue crispação. Se encostares os lábios aos meus flancos e ouvires o mar entrar na tua máquina de escrever deixa-o lavar-te a dor.


*

para o david

2006-07-05

dedicado ao legível

(fotografia de robert farnham)
*
*
foi então que as árvores respiraram
sustentando a queda dos astros
havia pernas a pisar os ramos
indiferentes à dança das trevas
havia faróis a bailar
por entre as sombras rasas
e cabelos humanos
nos troncos da inveja

*

como explicar o desprezo do espaço?
entender o terrorismo das feras diante dos teus braços?
perceber a ignorância dos patos a debicar cristal?
compreender a estância de zelo que a água empata?
decifrar a linguagem cega dos teus olhos parvos?
definir nas plantas a génese do teu abraço?
*
*
escrito a 4 de abril de 2006

2006-07-03

último poema

(fotografia de anna simonja)
*
*

quando os teus olhos se abrem
o mar dilata a terra em ondas brancas
repara
não é quando abres os olhos
fechados cobrem horror e espuma fétida
cosidos na cara tecem dunas subaquáticas
palmos de areia pálida
raízes secas e rugas desidratadas
é a tempestade que as rega
o infortúnio vence as marés cheias de ócio
a sede avança sobre a dormência ingrata
os monstros marinhos rompem as pestanas
e começa na boca
quando os teus lábios se abrem
repara
não é quando abres os lábios
fechados tapam cavernas naufragáveis
cosidos no rosto salvam as palavras
verbos fecundos que atravessam os rios ágeis
poemas férteis por entre as cáries
é o sal que os mata
o torpor das algas na garganta
o cume das vagas redundantes
o cu da noite ali deitado
e acaba nos pulsos
quando as tuas mãos se abrem
repara
não é quando abres as mãos
fechadas cercam oceanos
cosidas no peito são duas caravelas
é quando os teus olhos e os teus lábios se abrem
que as tuas mãos voam

*

acrescento importante comentário de vasco pontes, a quem agradeço a referência: "De Camões a Pessoa - AViagem Iniciática (SeteCaminhos), com pinturas e textos de Ellys e poemas de Maria Azenha, é o livro que será apresentado na Casa Fernando Pessoa no próximo dia 17 de Julho pelas 18h30"

2006-06-30

para a vanda

(fotografia de julian hill)
*
*

A casa onde morei é um prato com espinhas na borda da vida. A solidão há-de habitar no meu retrato até se esquecerem do meu nome. Os meus netos hão-de tocar na solidão e perguntar: quem é? Nesse dia serei a avó.
O meu quarto tem um relógio especial que conta os anos do esquecimento. A amnésia será tão eterna como o amor escrito na pedra do meu epitáfio. É uma equação sem nexo que dura para sempre no meu retrato.
Os homens têm um país em cada braço e falta de jeito para correr antes que seja tarde. O sono é o lugar onde se hospedam sempre que enterram as mãos dentro de uma cidade. Todos adiam o cansaço para o Outono numa casa sem meia estação.

Um dia a minha filha dirá: hei-de ser mãe. As palavras são os anjos da guarda. O tempo há-de passar e reproduzir a sentença. É antes da alvorada que a leiteira vem com o sumo das vacas. Pousa a garrafa rente à porta da vida que ainda está a dormir. Os anjos levam o leite para dentro dos homens e guardam o prazo de validade. Os anos caminham dentro do prato sem misericórdia. Os homens levam o leite para dentro da minha filha. O sangue interrompe o castigo por outro rio branco que lhe aflui às trompas. Há-de ser no meu quarto à frente do relógio que o ângulo das pernas brotará netos. É a jusante da memória que nascem as crianças sem história. Os meus netos hão-de perguntar: de quem é o aquário? Um dia hei-de ser um cavalo alado para não ser uma avó solidão.

*

terceira parte de (ensaio sobre) a ruína

2006-06-28

acta para violino

(fotografia de mário galante)
*
*

Inicia-se a viagem nas sombras no momento da estagnação dos mochos no ombro da manhã. O frio virá sobre a cidade como um manto de pó cremado. Deitarão o meu corpo numa cama de linho com o monograma bordado a pérolas. A colina que hei-de subir é um jardim onde o ritual das flores murchará no sétimo dia. Cumprirei o meu sonho de cavalo alado que foge para o campo de feno. Todos serão cúmplices do adejar inútil do meu fado. A minha filha há-de ser menstruada pela remissão da minha culpa. O castigo do sangue será leve diante da matança dos bichos da terra.

Quando aqui chegardes sabereis como estáveis enganados. As palavras que escrevereis tranquilizarão as vossas consciências. Direis: Aqui jaz uma mulher que amamos. Dai-lhe Senhor o eterno descanso e seja feita a paz na sua alma. Como vos enganais. Morrerei apenas quando os bichos cobrirem o meu corpo. Aprenderei então o significado do verbo comer. Os homens irão sobre o mundo indiferentes a este acto selvagem. Comungarão no pão e no vinho a absolvição dos meus pecados. Derrubarão árvores e florestas inteiras na esperança de um milagre. Mas os peixes do meu aquário não se multiplicarão. A minha filha há-de ler esta carta quando o cheiro dos móveis envelhecer. Será no princípio da mulher que a falsidade corta o cordão umbilical.

*
segunda parte de (ensaio sobre) a ruína

*

escrevo essencialmente porque é afrodisíaco

*

to the gatekeeper

*

acrescento excerto do comentário da marilena que adorei, obrigada e um grande beijinho para si

"Estes dois ensaios sobre a ruína compõem uma prosa com uma arquitetura de metáforas tão poéticas que encantam e levantam defuntos"

2006-06-24

(ensaio sobre) a ruína

(fotografia de michael morris)
*
*


O meu caixão há-de ser uma árvore centenária de casco duro e veios secos. Os homens hão-de avançar na floresta quando a hora cercar os ramos do sono e derrubarão o tronco no solo com o suor das estrias a rebentar no cinto nas calças. Ouço o timbre metálico da serra a rasgar o corpo da árvore velha e sei que a respiração é uma casa onde o tempo não se demora a mergulhar. Vejo-lhes as mãos latejantes sobre a madeira e reconheço as cidades que atravessaram para chegar a este pântano de gritos. Todos se abeiram do meu rosto com espelhos e dedos transpirados para averiguar o momento em que devem começar a chorar. Sou então lágrimas e nada mais do que a representação do silêncio alheio.

Um dia hei-de ser uma máscara de dor na cara dos meus peixes. Eles hão-de nadar às voltas no aquário e lamber cada minuto da minha infância em que cresci. A minha filha há-de encostar as narinas às borbulhas líquidas que sobem sem parar pelo vidro acima e ler as histórias que elas escrevem sobre mim. Todos estarão demasiado ocupados com o sofrimento enquanto ela regista o adeus que pronunciarei na água. Pela boca dos meus peixes é que hei-de morrer. Os homens virão da floresta como quem traz um navio antigo que há-de navegar dentro do aquário. A minha filha há-de tocar a superfície do futuro e pentear os meus cabelos que crescem do outro lado. Serei livre nesse infinito do tacto em que ela benze todas as bocas que ali suspiram. Todos farão luto durante meses estipulados e o preto descerá sobre os seus gestos como noite diurna.

*

talvez continue

2006-06-23

descida ao inferno

(quadro de nik fiend)
*
*

ela pediu-lhe: conjuga comigo ser feliz

ele respondeu: eu sou feliz contigo

ela perguntou-lhe o gerúndio do verbo

ele respondeu: eu morreria por ti, meu amor

ela ficou sem voz e a eternidade abateu-se entre eles

ele pediu-lhe a chave da casa dela

ela soergueu o busto e conduziu-o ao precipício

ele perguntou-lhe a palavra que a abria

ela respondeu que era segredo

ele perdeu o medo e foram abismo

ela tinha a alma vestida de inverno

ele levantou nua a noite dentro dela

*

ela era eu

2006-06-22

"moments in love"

(quadro de corinna button)
*
*
dentro de água
segredei-te ao ouvido
a nudez que o teu corpo me inspirou
veio um anjo derreter no teu mamilo
o fogo que a tua pele incendiou
está outro boiando ao violino
sinfonias que o mar te baloiçou
e a cera derretendo em espinhas
teu cabelo de algas marinhas

à tona de água nadam dois meninos
que deste à luz mais do que o sol
do amor que fizemos clandestino
vieram óvulos servir-nos de farol
estão outros girando no destino
perdidos na corrente das promessas
e eu a tocar na tua perna
ecos molhados de música serena
pedindo-te que não me esqueças

*

to corinna
five years ago
i was living at your place
and you were the one
who asked me to write
about your paintings
i miss you my dear
all my love
alice

2006-06-20

post maior


(desenho de picasso)
*
*

queridos amigos,

decidi publicar os comentários que mais me tocaram

porque se houver poesia neste blog, é escrita por todos vós

obrigada de coração e um grande beijinho a todos

alice

*

"pouso o meu olhar diário nesta praia perdida em busca de alimento que me satisfaça esta estranha forma de fome" do carlos josé teixeira

*

"Amar palavras e juntá-las
apaixonar quem lê
fazer as frases
molhadas da chuva do norte
o portão no muro
de ver quem quiser
quem souber"
do paulo

*

"venho aqui docemente calmamente esfomeada, são horas de almoçar, eu sei, e fico assim satisfeita, agora já nem sei se almoce ou não..." da blue

*

"{ ...existem palavras simples de complexas que gosto de escrever quando me sinto repleto do que leio (sempre que me agrada algo). deixo-te uma dessas palavras: «excelso» © ricardo biquinha... } " do biquinha

*

"Você, hoje, me fez levantar mais cedo e sair deste estado-ilha de ignorância" da janaína

*
"boa noite alice-ave-livre"
e
"em ti acredito
e me prostro
a essa ousadia
de florires
chutando os espinhos
à coroa"
do porfírio

*

"se a tua Poesia fosse uma flor seria uma magnólia. Porquê? Porque há quem lhe chame uma flor de carne" da licínia quitério

*

"merecias o prémio nobel da palavra ousada... quando a palavra ousa tudo pode acontecer... é realmente mágica e perigosa a palavra" da couvinha portuguesa

*

"a narrativa é impressionante e cinematográfica (vi as cenas enquanto lia)"
e
"A tua poesia, por vezes, deixa-me desconcertado.Porque tu tens uma qualidade rara: não tens medo das palavras"
do nilson

*

"já não és deste mundo. também não partiste de lado nenhum para outro nenhum lado.estás onde és. és no estado de graça que te suaviza o rosto inexistente fora do meu sonho.da-me gáudio tecer as linhasque contornam o teu sorriso." do amândio

*

"Tornei-me prisioneiro, deste amar verdadeiro, que me faz um escravo, a alimentar com ardil, o desejo vadio, dessa fêmea no cio…" do carlos

*

"a perfeição é azul?"
e
"precisA-se que alguém ouse. assim."
de doladodomar

*
os próximos três comentários são a resposta que recebi a uma mensagem que publiquei nos meus blogues favoritos

"tu eras a gaivota pousada no electrico que passava...percebi-te pelo olhar acutilante...pelo movimento das asas, quando por fim levantaste voo, pelo cheiro a mar que inundou a cidade..." da vanda

*

"Lembro.Claro que lembro. Fingi que não vi, sabendo do teu olhar cruzando o meu no ponto minúsculo do vidro (será que podemos considerar isso um olhar?). Mas vi. Tentei arranjar desculpas para te falar. Para te olhar nos olhos, mas não, tive medo. Duvidas. Será que...? Como dizer-te que passo os dias a desejar ver-te nos olhos? Como expressar com palavras simples esta sensação de vazio que tenho ao adormecer (a pensar em ti, sabias?) não sabendo se também sentes o mesmo; como expressar esta alegria ao acordar e pensar os teus olhos, sabendo que te vou encontrar? Já conheço o teu cheiro; passei uma tarde inteira na loja mas descobri. Comprei um frasco e todas as noites adormeço com ele (contigo). Sonho que estás aqui, bem perto. Fecho os meus olhos e sinto os teus cabelos. Será que também sentes os meus?" do guilherme f

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"desculpe, mas não nos vimos ontem... tenho plena certeza-pedra... porque minhas penas e meus pássaros, como minhas pernas e meus passos, são como um trem de ferro, que tem naturalmente escrito em seu DNA ordem, para não dar marcha ré, nem na lembrança do segundo que passa veloz...Que dirá, lembrar-me do dia de ontem... isso são eternidades que não ocupam espaço em minha memória volátil.Não, não nos vimos ontem, mas Venha... mesmo que aches que sou louco ou mentiroso. Não voltes atrás... Tenha coragem menina, venha... Não tente enganar o tempo, voltando os ponteiros do relógio. Você já tentou isso antes e sabes que não vai dar certo. Não, não tentes voltar o carretel das linhas, que acabas de ler, não dê marcha ré, como sempre faz, para melhor compreender. Não se faça de santa-tonta, você deitou seu charme, corpo e olhos sob outros. E vem dizer-me cínica, que “os pecados são todos meus” que devo carregar sozinho a cruz que você ajudou a construir!? Vamos, não queira ter, o controle de tudo e de todos. Arrisque-se comigo, pegue minhas mãos, sinta meu pulso, que vou fazer em ti, neste instante, a transfusão necessária de sangue-coragem, para que embarques já-já, no meu trem de muitos dias-vagões. Não tenha medo, não vai doer, não quero te ver anêmica de minha substância-sangue-coragem. Deixe-me assumir o controle até que você sinta-se segura. Vamos, venha sem olhar para atrás, deixe, estou no controle... Tome um pouco do meu elixir, que potencializa a voltagem de todas às aminésias. Venha... você vai ver ficar tudo claro como nunca viu, pois o farol do meu trem é o sol, que desvirgina às madrugadas e faz nascer todos aqueles dias que são brincantes-gargalhantes" do diovanni

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"raiz longa a enterrar-se no chão profícuo da palavra!!!!!!!!"
e
"a normalidade é um cenário dentro do qual felizmente tu não te enquadras....:)"
da isa

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"preciso voar no dicionário para entender algumas palavras do seu poema..:) Mas, antes disso, gosto sem entender. Gosto como quem gosta de uma arte abstrata.Gosto porque gosto das esculturas que vc ergue com suas palavras" da claudia

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"tua escrita é um paradoxo entre a simplicidade e a complexidade" do lord podeidon

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"Quando os olhos percorreram alvos seios erectos
já cinco extremos desbravam
floresta de desejos
Corre ainda o fruto da nascente
vulcão de teus olhos
leito de anseios"
do bufagato

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"Tomas a tristeza pela cintura
Dobra-la para trás.
E quando a libertas
Caem dela algumas folhas.
Leva-las á boca
Como se fossem sílabas
Ou beijos...Ou o remédio possivel
Para uma tarde de chuva!"
do frog

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"Sua literatura é grande demais, menina, parece que o blog é pequeno pra ela !!" da marilena

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"trepidam as palavras na minha alma, como uma peregrina sem tempo. nada receio e espalhasse em mim a tonalidade perfeita das imagem que me embriagam. à minha volta caiem pesadamente os sonhos da minha loucura..." da lena

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"Sabes, encontrei.te um destes dias na sombra dos meus pensamentos... e sorri!" do josé gomes

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"Penetrar o corpo,
deflorar um desejo
incendiar as veias
rasgar a alma
como se lençóis... fossem

o “sagrado”
cai
em forma de chuva
dos corpos
em entrega [pro]Funda..."
da betty

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"O meu corpo jaz,
a alma já não se encontra,
perdida em estilhaços,
que outrora foram coração,
a voz perdeu a força,
os olhos já cansados,
as escarpas de rosto,
esculpidas pelas lágrimas
da solidão,
e os meus lábios que frios,
selaram-se para sempre."

do gi

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eu avisei que era o post maior ;)