fully clothed i stand
invisible my lying naked body
laughing i greet
invisible my crying bared soul
loudly i shot
invisible my tiny whipering voice
fast i run
invisible the fairy steps i make
higher i jump
invisible the hardness of the fall

quando os teus olhos se abrem
o mar dilata a terra em ondas brancas
repara
não é quando abres os olhos
fechados cobrem horror e espuma fétida
cosidos na cara tecem dunas subaquáticas
palmos de areia pálida
raízes secas e rugas desidratadas
é a tempestade que as rega
o infortúnio vence as marés cheias de ócio
a sede avança sobre a dormência ingrata
os monstros marinhos rompem as pestanas
e começa na boca
quando os teus lábios se abrem
repara
não é quando abres os lábios
fechados tapam cavernas naufragáveis
cosidos no rosto salvam as palavras
verbos fecundos que atravessam os rios ágeis
poemas férteis por entre as cáries
é o sal que os mata
o torpor das algas na garganta
o cume das vagas redundantes
o cu da noite ali deitado
e acaba nos pulsos
quando as tuas mãos se abrem
repara
não é quando abres as mãos
fechadas cercam oceanos
cosidas no peito são duas caravelas
é quando os teus olhos e os teus lábios se abrem
que as tuas mãos voam
*
acrescento importante comentário de vasco pontes, a quem agradeço a referência: "De Camões a Pessoa - AViagem Iniciática (SeteCaminhos), com pinturas e textos de Ellys e poemas de Maria Azenha, é o livro que será apresentado na Casa Fernando Pessoa no próximo dia 17 de Julho pelas 18h30"
Inicia-se a viagem nas sombras no momento da estagnação dos mochos no ombro da manhã. O frio virá sobre a cidade como um manto de pó cremado. Deitarão o meu corpo numa cama de linho com o monograma bordado a pérolas. A colina que hei-de subir é um jardim onde o ritual das flores murchará no sétimo dia. Cumprirei o meu sonho de cavalo alado que foge para o campo de feno. Todos serão cúmplices do adejar inútil do meu fado. A minha filha há-de ser menstruada pela remissão da minha culpa. O castigo do sangue será leve diante da matança dos bichos da terra.
Quando aqui chegardes sabereis como estáveis enganados. As palavras que escrevereis tranquilizarão as vossas consciências. Direis: Aqui jaz uma mulher que amamos. Dai-lhe Senhor o eterno descanso e seja feita a paz na sua alma. Como vos enganais. Morrerei apenas quando os bichos cobrirem o meu corpo. Aprenderei então o significado do verbo comer. Os homens irão sobre o mundo indiferentes a este acto selvagem. Comungarão no pão e no vinho a absolvição dos meus pecados. Derrubarão árvores e florestas inteiras na esperança de um milagre. Mas os peixes do meu aquário não se multiplicarão. A minha filha há-de ler esta carta quando o cheiro dos móveis envelhecer. Será no princípio da mulher que a falsidade corta o cordão umbilical.
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segunda parte de (ensaio sobre) a ruína
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escrevo essencialmente porque é afrodisíaco
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to the gatekeeper
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acrescento excerto do comentário da marilena que adorei, obrigada e um grande beijinho para si
"Estes dois ensaios sobre a ruína compõem uma prosa com uma arquitetura de metáforas tão poéticas que encantam e levantam defuntos"
O meu caixão há-de ser uma árvore centenária de casco duro e veios secos. Os homens hão-de avançar na floresta quando a hora cercar os ramos do sono e derrubarão o tronco no solo com o suor das estrias a rebentar no cinto nas calças. Ouço o timbre metálico da serra a rasgar o corpo da árvore velha e sei que a respiração é uma casa onde o tempo não se demora a mergulhar. Vejo-lhes as mãos latejantes sobre a madeira e reconheço as cidades que atravessaram para chegar a este pântano de gritos. Todos se abeiram do meu rosto com espelhos e dedos transpirados para averiguar o momento em que devem começar a chorar. Sou então lágrimas e nada mais do que a representação do silêncio alheio.
Um dia hei-de ser uma máscara de dor na cara dos meus peixes. Eles hão-de nadar às voltas no aquário e lamber cada minuto da minha infância em que cresci. A minha filha há-de encostar as narinas às borbulhas líquidas que sobem sem parar pelo vidro acima e ler as histórias que elas escrevem sobre mim. Todos estarão demasiado ocupados com o sofrimento enquanto ela regista o adeus que pronunciarei na água. Pela boca dos meus peixes é que hei-de morrer. Os homens virão da floresta como quem traz um navio antigo que há-de navegar dentro do aquário. A minha filha há-de tocar a superfície do futuro e pentear os meus cabelos que crescem do outro lado. Serei livre nesse infinito do tacto em que ela benze todas as bocas que ali suspiram. Todos farão luto durante meses estipulados e o preto descerá sobre os seus gestos como noite diurna.
*
talvez continue
(quadro de nik fiend)ela pediu-lhe: conjuga comigo ser feliz
ele respondeu: eu sou feliz contigo
ela perguntou-lhe o gerúndio do verbo
ele respondeu: eu morreria por ti, meu amor
ela ficou sem voz e a eternidade abateu-se entre eles
ele pediu-lhe a chave da casa dela
ela soergueu o busto e conduziu-o ao precipício
ele perguntou-lhe a palavra que a abria
ela respondeu que era segredo
ele perdeu o medo e foram abismo
ela tinha a alma vestida de inverno
ele levantou nua a noite dentro dela
*
ela era eu

acreditar na luz. perceber-lhe a cara em cada aresta virgem.
venerá-la. ajoelhar os olhos e receber a benção. juntar as mãos.
cruzar os dedos. escurecer a mente. esvaziá-la. dialogar com o vácuo.
em prostração. em declínio físico. deixar de ser. não pensar.
por um instante a sombra do altíssimo. o longe perto. tocar-lhe.
solarizar a pele. o limiar do rosto. o contorno da culpa. desviar o medo.
por ali, senhor. por onde? siga pela verdade sempre em frente.
então, não tenho de virar? se virar, mente. e depois? pedir perdão.
tomá-lo na língua. por um momento o céu da boca puro. a vergonha
extinta. agradecer. curvar o corpo em útero.
o colo ser a cabeça da serpente. o sangue um animal sem dono.
enganar a coragem. como? acreditando.
*
deus é um poema na boca dos fiéis
*
dedico este post ao querido amigo bill, cujo blog celebra hoje o seu primeiro ano de vida, muitos parabéns e um grande beijinho
*
por motivos alheios à minha vontade, estou desde sábado passado sem acesso ao mail, pelo que apresento aqui um pedido de desculpas a todos aqueles que porventura tenham enviado mensagens que não posso ler nem responder. para qualquer assunto, favor contactar comigo via blog, porque leio as mensagens publicadas nas caixas de comentários através do template. grata pela vossa compreensão, agradeço a todos. beijinhos.

(fotografia de johannes barthelmes)
*
*
não ter nada para te dizer
e ser o teu nome uma ravina da memória que fumega bolas de sabão
não ser nada para ti
e ter nas costas uma estrada aberta para aportares como um barco na deriva
abrir-te as pernas
olha para mim
abrir-te a caverna habitável do meu ser
e não ser preciso entrares
ouve
não preciso que te metas em mim
para te ter
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para o gi
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isto a propósito do seguinte: há cerca de um mês, recebi uma carta nos seguintes termos:
"Ex.ma Sr.a Dr.a Alice (...), Por ocasião do sexto aniversário sobre a conclusão da Licenciatura (...), vimos pelo presente convidar V. Ex.a para um jantar de confraternização que se realiza no próximo dia ... (...)"
convite este que recusei dado já ter um compromisso na mesma data. não satisfeitos com a minha resposta, insistiram, garantinho que me esperariam. aceitei e cheguei ao restaurante à meia noite. trinta pessoas sentadas diante de copos vazios e guardanapos amarfanhados. sessenta olhos em cima de mim. e as perguntas logo disparadas: já casaste? tens filhos? como vai o trabalho? o que tens feito? porquê que só chegaste a esta hora?... e eu que detesto ser o centro das atenções fui respondendo, moro sózinha (...), trabalho imenso (...), fui a um evento literário... (mas tu gostas de ler?) tenho o meu blog... (tu escreves?????)
BLOG?... POESIA?... talvez seja melhor pedir a conta... está a fazer-se tarde... (...)
(impressão minha, ou passei de doutora a louca?)
*
fumei sobre o assunto
a pontuação que não uso e o teu rosto de água
*
"Bury me softly in this womb
I give this part of me for you
Sand rains down and here I sit
Holding rare flowers
In a tomb...in bloom
Down in a hole and I dont know if I can be saved
See my heart I decorate it like a grave
You dont understand who they
Thought I was supposed to be
Look at me now a man
Who wont let himself be
Down in a hole, feelin so small
Down in a hole, losin my soul
Id like to fly,
But my wings have been so denied
Down in a hole and theyve put all
The stones in their place
Ive eaten the sun so my tongue
Has been burned of the taste
I have been guilty
Of kicking myself in the teeth
I will speak no more
Of my feelings beneath
Down in a hole, feelin so small
Down in a hole, losin my soul
Id like to fly but my
Wings have been so denied
Bury me softly in this womb
Oh I want to be inside of you
I give this part of me for you
Oh I want to be inside of you
Sand rains down and here I sit
Holding rare flowers (oh I want to be inside of you)
In a tomb...in bloom
Oh I want to be inside...
Down in a hole, feelin so small
Down in a hole, losin my soul
Down in a hole, feelin so small
Down in a hole, outta control
Id like to fly but my
Wings have been so denied"
*
(i feel like alice in chains)
