O meu caixão há-de ser uma árvore centenária de casco duro e veios secos. Os homens hão-de avançar na floresta quando a hora cercar os ramos do sono e derrubarão o tronco no solo com o suor das estrias a rebentar no cinto nas calças. Ouço o timbre metálico da serra a rasgar o corpo da árvore velha e sei que a respiração é uma casa onde o tempo não se demora a mergulhar. Vejo-lhes as mãos latejantes sobre a madeira e reconheço as cidades que atravessaram para chegar a este pântano de gritos. Todos se abeiram do meu rosto com espelhos e dedos transpirados para averiguar o momento em que devem começar a chorar. Sou então lágrimas e nada mais do que a representação do silêncio alheio.
Um dia hei-de ser uma máscara de dor na cara dos meus peixes. Eles hão-de nadar às voltas no aquário e lamber cada minuto da minha infância em que cresci. A minha filha há-de encostar as narinas às borbulhas líquidas que sobem sem parar pelo vidro acima e ler as histórias que elas escrevem sobre mim. Todos estarão demasiado ocupados com o sofrimento enquanto ela regista o adeus que pronunciarei na água. Pela boca dos meus peixes é que hei-de morrer. Os homens virão da floresta como quem traz um navio antigo que há-de navegar dentro do aquário. A minha filha há-de tocar a superfície do futuro e pentear os meus cabelos que crescem do outro lado. Serei livre nesse infinito do tacto em que ela benze todas as bocas que ali suspiram. Todos farão luto durante meses estipulados e o preto descerá sobre os seus gestos como noite diurna.
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talvez continue




















