
(fotografia de josé marques lopes)
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tu és
ontem em mim
seres assim
uma espada rente aos tímpanos
um batráquio no nenúfar do amanhecer
enquanto arrumas os testículos
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achas isso normal?
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dali ao deserto
nem a agonia fugia. e era tanto o peso nos ombros dela. eu queria ensinar a paz ao desespero. levantar o tecto sobre os anexos da alma. eu queria falar-lhe dos estados do tempo e das camionetas no asfalto
dali nem oásis nem fingimentos
e era muito poético o azul distante. eu gostava de ter uma casa na lua. estalar os dedos e ser vidro fértil. eu gostava de ser um pedinte de rua. e coleccionar o teu espanto
dali só poente e brisa de veneno
e era gume e mola esta tormenta. eu seria uma nuvem ou a estrofe perdida de um soneto. eu seria uma tia afastada vestida de pai natal para ela viver mais um ano
dali ao silêncio
os mortos aqueciam a terra e pisá-la era tão amargo
dali era mais perto descer ao chiado e apanhar o metro
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porque acredito que tu vencerás a barreira
(fotografia de mário galante)ele bebeu uma garrafa por cada mulher que traiu. agarrava no dorso de vidro com força. encostava aos lábios com fúria. engolia com pressa. pousava no chão com sede. e escrevia nos rótulos os nomes delas. a espuma a lamber as letras. não escreveu o meu nome. perguntei-lhe se escreveria o do menino. disse que não. foi dizendo sempre eu sou uma merda e bebia. foi repetindo eu fiz tantas coisas feias e bebia mais. até que as mulheres acabaram e haviam ainda garrafas cheias no chão. vazias e cobertas de nomes lambidos. começou a descascar comprimidos. escolhi este dia para morrer, disse, e tomou os comprimidos. um por cada mentira. cobria a palma da mão e engolia. eu fumava. eu já estava morta ainda ele se matava. e a náusea subiu-me ao pescoço sem carícia. era tudo muito difuso. a persiana corrida. a luz mal quadriculada. as minhas pernas bambas. a sanita do outro lado da casa. ele saiu enquanto vomitei. corri tanto. ele arrancou com o carro. eu segui-o sem cinto. não contei os quilómetros. excedi a velocidade. o semáforo ficou vermelho. ele não travou a tempo. nunca o fez. eu estava nesse momento a ultrapassá-lo. vi a cabeça dele bater no volante. um fio de baba lamber-lhe a barba. o meu nome escrito no adeus. as luzes do carro tão claras. o barulho do motor tão doente. o semáforo ficou verde. escolhi este dia para morrer, disseste. deixei-te dentro do carro em liberdade.
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qscaremc
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acrescento o comentário do legível que adorei, obrigada, beijo
"... quando os paramédicos chegaram, limitaram-se a cumprir o ritual em casos desta natureza; sem pressas, que o carro nem sequer ficara de modo a dificultar o trânsito.Ela, distante e absorta (quem sabe se divagando sobre garrafas, nomes, comprimidos, cintos e semáforos ou sobre nada de concreto), nem deu que os maqueiros retiraram de dentro do veículo, o corpo a quem ela tinha dado à liberdade.A noite fechou-se de vez sobre a cidade."
(fotografia de elisandra amoedo)
(fotografia de jorge adn costa)








