planeio matar-me, meu amor.
a velha que mora no andar de cima tem o vento enjaulado no frigorífico e a conta da luz lá pousada. o calor contou os degraus e subverteu a física. subiu a descer.
o rapaz da drogaria veio hoje buscar os bicos do gás e nem sopa tenho para mastigar os pobres.
há a varanda e a ria e a geografia que o arquitecto soube enquadrar. mas sabes como tenho medo das alturas.
estive a ver o extracto da saudade e as folhas em branco que não vou rasgar. cancelei o cartão do banco e varri o dinheiro para debaixo da simpatia.
não tenho ninguém a quem avisar. vou marcar a data do meu funeral. no domingo, à hora do chã.
escolhi um caixão já usado e na vala comum é mais barato.
levo as calças da tua mãe e o tronco nu. se me constipar, volto para coser as tuas meias e deixo-te as minhas mãos na caixa do correio.
a chave? vou entragá-la à mulher do supermercado. coitada. cheia de varizes e molas no soutien.
vou usar ácido. fumo um cigarro e conto até dez. lembras-te? finjo que são os teus lábios e bebo devagar a tua boca.
quando morrer, quero ter um telhado e um sorriso abafado na casa principal.
ouve. não leves tulipas nem lágrimas. as flores crescem dentro de ti primavera encantada. deixa os vestidos secarem pretos e as nódoas treparem floresta.
se vieres, traz-me uma quadra que diga gosto de ti.
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acreditas que a angústia entrou pela janela do meu quarto?


















