(fotografia de mário galante)
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ele bebeu uma garrafa por cada mulher que traiu. agarrava no dorso de vidro com força. encostava aos lábios com fúria. engolia com pressa. pousava no chão com sede. e escrevia nos rótulos os nomes delas. a espuma a lamber as letras. não escreveu o meu nome. perguntei-lhe se escreveria o do menino. disse que não. foi dizendo sempre eu sou uma merda e bebia. foi repetindo eu fiz tantas coisas feias e bebia mais. até que as mulheres acabaram e haviam ainda garrafas cheias no chão. vazias e cobertas de nomes lambidos. começou a descascar comprimidos. escolhi este dia para morrer, disse, e tomou os comprimidos. um por cada mentira. cobria a palma da mão e engolia. eu fumava. eu já estava morta ainda ele se matava. e a náusea subiu-me ao pescoço sem carícia. era tudo muito difuso. a persiana corrida. a luz mal quadriculada. as minhas pernas bambas. a sanita do outro lado da casa. ele saiu enquanto vomitei. corri tanto. ele arrancou com o carro. eu segui-o sem cinto. não contei os quilómetros. excedi a velocidade. o semáforo ficou vermelho. ele não travou a tempo. nunca o fez. eu estava nesse momento a ultrapassá-lo. vi a cabeça dele bater no volante. um fio de baba lamber-lhe a barba. o meu nome escrito no adeus. as luzes do carro tão claras. o barulho do motor tão doente. o semáforo ficou verde. escolhi este dia para morrer, disseste. deixei-te dentro do carro em liberdade.
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qscaremc
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acrescento o comentário do legível que adorei, obrigada, beijo
"... quando os paramédicos chegaram, limitaram-se a cumprir o ritual em casos desta natureza; sem pressas, que o carro nem sequer ficara de modo a dificultar o trânsito.Ela, distante e absorta (quem sabe se divagando sobre garrafas, nomes, comprimidos, cintos e semáforos ou sobre nada de concreto), nem deu que os maqueiros retiraram de dentro do veículo, o corpo a quem ela tinha dado à liberdade.A noite fechou-se de vez sobre a cidade."