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hoje vou falar do amor
da sua língua esguia e serva
do seu idioma pronto a usar
diz-me, amor, quantos verbos tens?
foder é só um ou apenas todos?
não te espantes se te explorar
hoje falarei do ódio
da sua pele tão fria e terna
do seu saiote leve e justo
diz-me, ódio, quantos risos tens?
perverso chega ou usas doentio?
não te admires se te adoptar
hoje falarei do sexo
da sua mala cheia de graça
do seu presépio de palha d'aço
diz-me, sexo, quantos furos tens?
fantasias ou vens-te sem matar?
não te demores a ejacular *
(fotografia de eldor gemst)*
postado ao som de "dante's prayer" de loreena mckennitt:
When the dark wood fell before me
And all the paths were overgrown
When the priests of pride say there is no other way
I tilled the sorrows of stone
I did not believe because I could not see
Though you came to me in the night
When the dawn seemed forever lost
You showed me your love in the light of the stars
Cast your eyes on the ocean
Cast your soul to the sea
When the dark night seems endless
Please remember me
Then the mountain rose before me
By the deep well of desire
From the fountain of forgiveness
Beyond the ice and the fire
Though we share this humble path, alone
How fragile is the heart
Oh give these clay feet wings to fly
To touch the face of the stars
Breathe life into this feeble heart
Lift this mortal veil of fear
Take these crumbled hopes, etched with tears
We'll rise above these earthly cares
Cast your eyes on the ocean
Cast your soul to the sea
When the dark night seems endless
Please remember me
Please remember me
Please remember me, ...
é tarde
hoje em breve será ontem
o dia vai morrer
está a agonizar no meu peito
tão redondo e cheio de fezes
não me toques agora
estou cansada
carregar o peso dos dias faz-me mal
e o cheiro da peste
como fumo sem fogo
não me beijes
ainda acendes a lua antes da meia noite
e não há nada pior do que um dia mal morto
deixa a hora última passar
pousa a tua boca entre os meus seios
e mete três dedos
mexe-os como ponteiros
mata-o devagar
não te venhas
deixa-me pari-lo nos teus lábios
escrevê-lo nas linhas das tuas mãos
para alguém ler o dia que enforcaste
levanta o queixo
ergue-o como o tesão do crime que cometeste
olha para mim
é tão cedo, meu amor
e ser puta é tão triste*
(quadro de paul gauguin)
estás a ver o frio a rematar-se ali na esquina?
e a velha à janela a fingir-se menina à lua?
e o homem sem rosto que passa por nós como o medo?
sabes que horas são quando voltas a abanar as mãos?
espera, deixa-me desenhar-te
vou buscar o x acto e os lenços de papel
estás a ver o calor do meu braço ferido?
e a colheita encarnada da minha pele clara?
e as salinas no lugar das pupilas?
sabes que temperatura está no meu coração?
espera, deixa-me fixar-te
vou buscar o relógio e o tempo lá parado
estás a ver o lobo a rondar a incerteza?
e a seiva dos espaços densos sem palavras?
e as gretas a rachar-me os lábios mal beijados?
sabes que dor me corta as veias quando viras as costas?
espera, deixa-me perdoar-te
vou buscar o futuro à mesinha do meu quarto
estás a ver o meu sono espantado a vigiar-me?
e a ressaca a martelar o meu corpo contra a noite?
e o meu andar parado quando calço saltos altos?
sabes que te amo? *
(fotografia de margarida araújo)
a pedra de cal é nuvem
quando os cães a lambem
e enquanto a lascívia
sobe pelas mamas dela
as caudas abanam o mundo*
(fotografia de nicole)
sara deixou cair o poema na cama
era sempre o instinto que explicava o caminho seguinte
o único possível
o único exequível
assim como hugo havia procurado a mama para reter a fome
e agora dormia saciado
também os dedos cegos de sara
encontraram fome a dilacerar-lhe o sexo
e começaram a comer desesperadamente
sara respirava menos agora
já não tinha medo
podia entregar-se à sede que escalava da nascente do seu corpo
deixar o primeiro rio do mundo correr pelas estrias da pele abaixo
ignorar a brancura pura que desmentia o sangue nos panos das coxas
e esfregar-se apenas
mais tarde
os homens inventariam termos técnicos para definir o amor
mas nesta época azeda
não havia inteligência sobre a terra
havia impulsos genéticos
tensões primárias
fome na criança e no sexo da mãe
sede nos dedos que o comiam
água lisa a brotar sem reservas
água branca a violar o sangue e a lavar as pernas cansadas
olhos inquietos a bulir no rosto dela
olhos irrequietos a girar nas covas sagradas da cara dela
e segredos incontados a desenharem-lhe a boca
segredos inconfessados a delinearem-lhe os lábios
e asas a contornarem-lhe as feições
asas curvas a guiarem o olhar invisual das unhas
dentro do segredo de sara*
(fotografia de mesa)
quando hugo adormeceu, sara foi buscar a caixa velha dos retratos
respirava sempre mais quando destapava o baú das memórias
como se os pulmões pudessem recuperar o cheiro dos antepassados
perdoou-se a fraqueza na escolha dos envelopes
era-lhe sempre difícil invadir a sua privacidade
estava dentro da roulotte que a avó lhe deixara
era uma casa móvel, logo, podia demolir-se e remolir-se quando desejava
havia uma estrela pendurada à janela e panos ensanguentados a coser-lhe as pernas
(mas a dor do parto coagulava e o brilho celeste jamais cessava)
dali, ouvia a poesia a chover
e a água caía dentro da caixa das recordações
e humedecia os papéis já de si muito gastos
sara tinha ciúmes da erosão
do efeito quase perverso do desgaste nas fotografias
das nódoas irrecuperáveis a eternizar momentos efémeros
da evaporação da cor e dos traços perfeitos
e hugo dormia no início do verbo que haveria de ser
a mãe olhava-o com o amor possível que advém dos factos biológicos
segurava os papéis com a força com que poderia reter aquele amor para sempre
prendia-os com a mesma vontade de estancar as lágrimas que sabia irrepetíveis
mas nem as palavras resistem ao princípio da criação
é uma questão de essência, de natureza irrecusável
e basta um gesto para apagar uma ferida
após o dilúvio, restou um papel nas mãos de sara
desdobrou-o sem pressa e começou a ler o primeiro poema do universo*
(fotografia de sergei dmitrov)
o padre cláudio acabara de fechar a igreja
todos os pecados se haviam expiado dentro de portas
no confessionário apenas jaziam lamentações incómodas
o sino anunciou a batelada mágica do dia a nascer
e logo as mãos dele recolheram o terço para o interior das calças
não haviam almas àquela hora
o padre seguiu pelas mesmas vielas que antes o conduziam ao descanso
cruzou-se com os mesmos gatos
e não havia denúncia alguma nos seus olhos vadios
estugou o passo quando pressentiu o mistério
os dedos tremiam-lhe mal contendo o molho de chaves
perdeu o juízo quando caíram ao chão
não usava óculos
a roupa pesava-lhe quando se deteu a procurá-las
e os paralelos tinham mais ranhuras que o medo que sentia
ouvia os fantasmas
as vozes que o ar cuspia à sua volta
as penitências mal curadas a zumbir nas fendas a seus pés
e um choro
um prenúncio benigno
ergueu-se em pânico
agarrou o rosário e beijou a cruz
começou a rezar
deu por si a ouvir a sua própria inutilidade
falava cada vez mais alto
e cada vez mais se apoderava de si a verdade
e o choro nítido que estalava o silêncio próximo
o barulho líquido que assolava as primeiras horas *
(quadro de frida kahlo)
eram onze horas da noite
as labaredas rodeavam a escuridão
só haviam chamas a consumir poeira
e corvos a procurar os restos da terra
o mundo tinha acabado de terminar
a neve derretia as casas moribundas
o fogo comia as últimas crianças
o vento soprava clandestino nas ruas
e a cidade dormia a derradeira insónia
sara levantou-se quando ouviu a saudade
por instinto, levou a mão ao ventre e viu que estava grávida
repito que o mundo tinha acabado de começar
com uma única vida a gerar-se no útero de uma mulher
a seu tempo saberemos da paternidade
e dos nomes que confluem o passado e o futuro de hugo
*
escrito no dia 14 de Abril de 2006
primeira parte de "vidas vazias"
título da autoria de r. s.(fotografia de robert farnham)
agora
as águias ferem-me as trompas
deve ser do cheiro a lombrigas movediças
mas não é de luto que se veste o ânus
os bicos mordem céleres a pele e as presas
e o vento é homossexual quando me sento
agora
os ossos padecem de leite e cálcio
deve ser défice de magnésio e ouro branco
mas não é de cuspe que se temperam de véspera
os pénis encorajam a solidão para dentro
e o trajecto da bala é desfeito no hálito
agora
os duendes parecem matrículas caducadas
deve ser das fadas virgens que rareiam
mas não é ao escuro que rezam e choram
os anjos fodem melhor de luz acesa
e a falta de esperma é pomada e dor
agora
as borbulhas espremem rugas brandas
deve ser da queda capilar e genital
mas não é crime abortar amor às cegas
os olhos mentem mais trovoadas abertos
e a água cura a esperança do perdão
agora
os ratos comem os restos
(...)*
(fotografia de ricardo tavares)
as ruas gemem
vejo os lampiões a tinir
os corpos sobre a mesa
levanto a toalha
e eis que se abate uma guerra
as facas tombam
lâminas pontiagudas como olhos
cera
sémen pendente como um mapa
a torneira apagada
cascas
restos de comida nos bolsos
o cotão dos livros à solta
a espera
e vem-me o período
como um relógio perene*
escrito no dia 4 de maio de 2006 às 00:24
AMAR.
O VERBO.
A VIDA ORIENTA-SE EM FUNÇÃO DA LINGUAGEM OU SERÁ A LINGUAGEM QUE VISA EXPRIMIR A VIDA?
ACREDITO NA PARTILHA, NA INTERACÇÃO.
ENTÃO, A VIDA IMITA A LINGUAGEM E A LINGUAGEM IMITA A VIDA.
AMAR.
A ORIENTAÇÃO.
O VERBO AVANÇA POR ENTRE CASCATAS, FLORESTAS, OU PELO EÓN E A BRUTALIDADE DAS CIDADES.
O VERBO CARREGA EM SI A PUREZA.
E AQUELE QUE O ESCREVE DEVE SENTIR A LUZ DAS COISAS PURAS, A ESSÊNCIA LÍQUIDA DO MUNDO.
AMAR.
PORQUE SE AMA NOS DIAS, NAS SEMANAS, MESES E ANOS.
PORQUE O SER FOI FEITO PARA AMAR.
E EXPRIME O AMOR NA LINGUAGEM.
EXPRIME O SEU PATHOS NO CÓDIGO INTELIGÍVEL DAS PALAVRAS.
EU PODIA VIVER NO MEIO DE FRASES.
EU PODIA VIVER NO MEIO DO MUNDO.
EU PODIA VIVER NOS TEUS LÁBIOS,
NO TEU OLHAR,
EM CADA UM DOS TEUS MOMENTOS SEM MIM.
PODIA VIVER AÍ.
PRESSINTO-TE.
PORQUE O VERBO CONJUGA-SE EM MIM E NO MUNDO QUANDO ESTÁS PRÓXIMA.
*
autor: r. s.
(fotografia de paulo marques)